--- Frase de Agora! ---
"A água é para os escolhidos
Mas como podemos esperar que sejamos nós..
... eu e você?"

Máquina do Tempo: Vaga Viva do Coletivo Ideia Nossa. A única vaga viva do lado de cá da ponte =) Vaga Viva do Ideia Nossa

Destaque da Semana: Onde está o sol que estava aqui?
Ladrões de sol, crise hídrica e êxodo rural
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Undertow Parte II


Do outro lado da cidade seus pais corriam. Dentro do carro dois enfermeiros da Clínica Reformatória de Delinquentes Juvenis. Estavam a chorar.
As luzes dos homens já reinavam na cidade, o sol se punha por completo.
A mãe, no banco do passageiro chorava incessantemente, e tentava se controlar tomando meia dúzia de calmantes, sem efeito. O padastro dirigia o mais rápido possível dentro do limite de velocidade, estava visivelmente abatido, mas parecia uma criança sorridente perto de sua mulher. Os enfermeiros estavam preocupados e levavam consigo uma camisa de força e alguns tranqüilizantes numa maleta de couro rachado, ambos eram novos na CRDJ e nunca tinham pegado caso tão complicado.
- Ai...
O padastro suspirava e levava uma das mãos à cabeça, e no semblante rugas de preocupação que logo deram lugar para um riso no canto da boca.
- Eu sabia que tinhamos esquecido algo, lembrou-se o que era querido?
Trepidava, mas tentava manter a calma na voz suave que um dia já encantara multidões nos teatros no centro da cidade.
- Não, não lembrei de nada, só não aguento mais essa situação.
Ríspido e sem tirar os olhos da estrada o homem de meia idade, corpulento e de cabelos esvoaçados dirigia, agora já não com tanta pressa, agora já não tão desesperadamente. Seus olhos denunciavam algo, mas todos no carro estavam presos em suas próprias teias e sua gargalhada seca e pra dentro nem foi percebida.

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O garoto entrava em pânico, o sol partira sem ele, estava envolto ao breu e a noite lhe causava arrepios. Não enxergava nada.
Estava prestes a lutar, a esquecer de todos os problemas e buscar por soluções, não seria covarde de deixar esse mundo horrível, antes de partir teria que mudar o mínimo possível, queria fazer sua parte, não queria mais fugir, interpretava a situação com outros olhos.
Ele não abria mais suas feridas, agora passava a mão levemente sobre elas tentando estancar o sangue. Precisava ver sua face novamente, sentia-se mudado, como se os últimos raios de sol o tivesse enfeitiçado.
Sentia-se tonto e precisava respirar, aquele forte odor inalado estava enfraquecendo-o mais e mais. Estava deslocado, não sabia pra que lado era a porta que dava ao quintal. Achou-se ao pé da mesa da cozinha e tateando sobre sua superfície encontrou um isqueiro...

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A um quarteirão da casa ouviu-se uma explosão, houve uma troca de olhares e um grito agudo mergulhado em desespero:
- O gás!!! Esquecemos o gás ligado!
...
Seu maior pecado foi ser um adolescente que conseguiu abrir os olhos, primeiro para o problema e depois para a solução, mas já era tarde, sua presença não importava mais, ninguém parou sua rotina alienada de casa-trabalho-compras para tentar compreendê-lo. E ele queimou com tudo, ele vôou dentro das chamas purificadoras, evitou sua queda naquela noite de veludo negro-piche e libertou-se dessa sociedade medíocre, agora ele não precisa mais nadar contra a corrente, simplesmente voa livre por aí seguindo os raios de sol e ajudando a aquecer algumas almas desorientadas...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Undertow Parte I


- Então é chegada a hora... Vamos embora! Não importa mais se você encontrou as respostas que precisava saber, agora eu já sei!
Atordoado o rapaz discutia com sua imagem distorcida no espelho. Pelo banheiro caixas de remédio e garrafas de whiskey, o cheiro do álcool e do vômito que escorria pelo vaso sanitário encontrava o fétido odor de uma adolescência em crise e juntos aumentavam mais e mais a vontade de gritar e de voar pra bem longe.
- Eu encontrei o caminho! Eu! Eu disse que EU encontrei o caminho sem sua ajuda imbecil, sem você pentelhando nos meus ouvidos, sem você pra me contar cretinices, eu aprendi a andar sozinho...
Sem mais lágrimas, o pranto seco ecoava pela casa vazia, sem vida. Batendo com a cabeça na parede escura de infiltrações, buscava forças para se levantar, mas não conseguia, só lhe restava gritar.
- Onde está todo mundo?! Eu quero sair!
Seus pais não sabiam o que fazer, ele estava mudado, há algumas semanas o dia-a-dia transformou-se numa rotina insuportável. Mas nunca tinham sido agredidos, então, aproveitando mais uma de suas crises agudas no banheiro, trancaram-no na casa e, ensaguentados, correram para buscar ajuda.
Com esforços notáveis e uma respiração cansada aproximou-se da janela.
- ...Eu voaria?
Alguns segundos de pausa poética e o rapaz se concentra no horizonte, o sol se punha.
- Os céus parecem me compreender... É mais um dia de nossas lindas e maravilhosas vidas indo pro lixo, e ele sangra. Aqui está tudo tão vermelho, mas o céu está mais, ele sangra mais... Ele sobreviverá?
Tocando levemente as feridas que já não sangravam tanto, ele olha ao redor, acho que não quer mais isso. Seus olhos pestanejam, é hora de durmir e acordar pra outro dia maravilhoso.

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Deixando-se cair no chão ele avista um comprimido intacto, não se lembrava de ter tomado aquele, ele estava tão bonito, brilhante e convidativo. Esticou-se e pegou-o de dentro da privada recheada de vômito, levou à boca e procurou alguma garrafa ao redor, mas estavam vazias. Apoiou-se na pia, estava fraco e buscava água, escorregou e cortou-se numa gafarra quebrada, sua perna agora sangrava e o chão ganhava a segunda mão de sangue.
Não gritou. Ficou estático por um tempo, logo se levantou e investiu um soco furioso em um dos espelhos que ainda não estava quebrado.
- Aaah corra sol, corra e não me veja! Não veja o espelho de sua alma, se não tudo que presenciou irá gritar.
E se via no espelho, todo distorcido e via o reflexo avermelhado do sol obedecendo as suas ordens.
- Você sempre esteve aí e um dia se perderá, então que nos percamos juntos... Você me levaria além do horizonte e deixaria sentir seu calor? Aqui está tão frio...
O ambiente úmido e mal cheiroso não contribuía em nada. Apesar de tudo ele se sentia vivo, ele talvez acreditasse em seu coração agora, talvez ele realmente estivesse descobrindo sua verdadeira essência, mas a verdade o faz morrer.
Alguns anos de vida mal vivida, alguns anos de vida vivida igual a todas as outras vidas: defendendo causas que não colocava em prática e praticando coisas que repudiava. Seus olhos abriram, não queria crescer e ser como todos eles e nada do que quisesse fazer para tentar mudar era permitido. Já não queria mais uma vida medíocre, a verdade o consumia.
Encolhido em um canto úmido agonizava, chorava e gritava por dentro. Estava pálido, seus olhos denuciavam o estado de sua alma, e ela se contorcia. Tremia e olhava para todos os cantos do banheiro, como se visse todos os pecados da humanidade em cada teia de aranha, em cada infiltração, em cada gota de sangue.

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- Argh...
Alguns múrmurios pulavam de sua boca.
- Eu...
Tremia mais e mais, não controlova e não se encontrava mais nesse planeta.
- Eu quero sangrar... Sangrar meus pecados...
Com movimentos lentos, porém certeiros abria as feridas que tinha nos braços e nas pernas. Uma terceira mão de sangue cobria o chão. Empalidecia mais e mais.
- Vou chorar todos os pecados, todos os meus erros enquanto puder respirar e vou correr com você sol, não parta sem mim.
Ia se levantando, poucos raios de luz vermelha alcançava o banheiro agora, tudo estava escurecendo.
- Eu quero esquecer os caminhos, quero esquecer tudo que descobri, não quero mais andar sozinho! Não vá sem mim...
Esgueirava-se em direção à porta, suas forças estavam no fim, suas lágrimas já estavam secando, mas o sangue não cessava.
Destrancou a porta e arrastou-se pelo corredor deixando um rastro escuro de sangue atrás de si que contrastava com o piso cor de marfim.
- Já estou cansando, não consigo mais chorar... Deixe-me quebrar as coisas que amo?... Preciso chorar!
Fotos de família acolhidas confortavelmente nas mobílias pelo corredor eram lançadas ao longe e novos soluços eram lançados pra fora. Todas as fotos de momentos que sorria, de momentos que lembrava com carinho, não eram reais. Por onde passava deixava um rastro de sombra e sangue, o sol partia, a penumbra adentrava.
Na cozinha não via muita coisa, estava escuro e não alcançava o interruptor. Estava frio e a umidade não era o principal o problema, havia um odor estranho no ar que irritava suas narinas, ele já nem sentia mais a mistura de álcool, vômito e sangue no ar...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Prefácio Undertow

Há um tempo descobri um site chamado Mojo Books (http://mojobooks.virgula.com.br/), a idéia de pegar músicas e transformá-las em contos e discos em livros me fascinou. Confesso que ainda não li nada publicado no site, mas comecei a escrever um single em cima da música Undertow do Pain of Salvation.
O álbum Remedy Lane é um álbum conceitual e todas suas músicas completam uma história magnífica, mas ao me propor à escrever algo sobre Undertow preferi sair do contexto e criar uma outra situação. Não, eu não alterei o ar sombrio da música e tentei manter isso nos períodos do conto, que é pequenino, tem três páginas e acho que vou postá-lo dividido em duas partes. Como tudo que faço, esse conto tem diversos resquícios de mim e tentei fugir um pouco do meu vício de escrever apenas em primeira pessoa.
Aqui vai algumas versões, um clipe, uma com legenda e uma ao vivo, e em cada parte vou postar a versão original.
Bom, eu aguardo anciosamente críticas, espero que gostem!





sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Brisas de Outono Pt. VI (Final)

Durante a vida toda tive vontade de escrever um livro, tenho diversos escritos espalhados, mas nada realmente importante, uma vez ou outra também escrevia poesias para minha guria, mas que parecia somente elogiar pra animar-me. Agora mais do que nunca encontrara, ou melhor, vivenciara algo espetacular para relatar, e aqui estou.
As Brisas de Outono continuavam a encantar meus olhos, minha alma e meu coração. A rua nunca vista tão movimentada, enchia-se de curiosos em volta do tapete laranja, é impressionante como o ser humano esqueceu-se da Mãe-Natureza, e agora se encantava simplesmente com o outono como um garoto de seis anos se encanta ao ganhar seu primeiro ESRV.
Toda aquela cena era realmente impressionante, mas não se iguala as belezas naturais do meu Brasil e muito menos a beleza deliciosamente única da minha guria.
Continuo a escrever e continuarei até que essa dor no peito pare de latejar, a cada sopro de liberdade exalado das brisas meu coração se encanta e geme. Acho que vivi emoções fortes demais.
Novas interrogações precipitaram-se em mim. Qual o verdadeiro motivo das brisas causarem essa calorosa confusão na minha tarde outonal?
Ao digitar isso sopraram mais forte, lançaram-se aos céus, bipartidos e cruzadas entre si, formando elos e lembrando a cadeia de genes de nossos DNA’s. Mesmo à tão altitude ainda sentia o calor confortante que me fazia continuar a relatar tudo que acontecia comigo. Elas desceram rodopiando, sopraram ainda mais forte e desfizeram o tapete, e obrigaram os pais levaram seus filhos para dentro atemorizados com a idéia de que fosse mais uma ventania. As folhas voaram alto, tocaram os céus, e exalavam liberdade. Sorriam, brincavam e descansavam, creio que conseguiram o sossego ardentemente desejado desde a primeira queda. Rapidamente sumiram no horizonte.
Isso! Só pode ser isso!
As Brisas de Outono levaram essas folhas pra algum lugar, um lugar melhor que esse mundo. Um lugar cheio de cores onde a melodia mais doce reside, um lugar para as folhas e para minha alma. O Jardim do Éden.
As brisas não cruzaram o oceano somente para encaminhar essas folhas. Minha guria as trouxe de nossa terra pra poder me levar.

Finalmente alcanço liberdade, e parto sem frustração, deixo uma pequena obra que logo, o italiano poderá desfrutar minha crônica e despedir-se. Se essa dor no peito minguasse, eu concluiria com uma dedicatória, mas creio que minha hora chegou.
Salvando arquivo e dizendo adeus.

C.P.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Brisas de Outono Pt. V

O que realmente aconteceu? Tudo parecia uma realidade ilusória e ao mesmo tempo uma ilusão real. Já não sabia distinguir o real da ilusão, o certo do errado, nem as cores vivas da indumentária das crianças do alaranjado contagiante do outono. A melodia tornou-se um caos. Tanto a da canção como a da vida. Vida que ganhou novo ritmo – meu coração se encantava novamente – a melodia estava de volta. Do horizonte as brisas serpentavam e rodopiavam em minha direção, estavam intactas, triunfantes. Lá ao fundo as nuvens negras-metálicas dissipavam e davam lugar ao céu azulado típico de outono, as nuvens pareciam abatidas e seus ventos não sopravam mais. Além da linha do horizonte as brisas haviam ensinado o certo aos ventos errantes.
O relógio no parapeito ao lado da minha caixa de remédios voltou a tiquetaquear quando a música novamente se acalmou. Agora, alguns minutos depois, não tenho certeza se ele realmente parara ou se com toda a agitação do momento e o presente que a canção fornecia alimentando a atmosfera de trilha sonora, me impedia de ouvi-lo.
As brisas sopravam lentas e gostosamente confortáveis. Arrepiei-me novamente. Elas passaram por mim e acalmaram-me de todo, meu coração sentiu-se tão encantado que gemeu de prazer.
A canção soava outonal e perfeitamente adequada à cena. Os vizinhos que saíram para ver como seus filhos estavam após a ventania pareciam se encantar assim como eu. As árvores nuas, com seus galhos gargalhando às cócegas de brisa, e todas as folhas reproduzindo um espetacular tapete laranja, por vezes, subindo e farfalhando levemente ao ritmo da canção, ao embalo das brisas. Todos olhavam encantados.
Continuava na cadeira de balanço, agora com uma mão no peito e outra ligando o lap-top, não poderia deixar de registrar uns dos melhores minutos da minha vida.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Brisas de Outono Pt. IV

Ouvi o estalar da brasa na lareira. O relógio parara, depois de tantos anos em funcionamento normal. A música presenteava o ambiente com uma atmosfera de filme. E não de muito longe ouvi um trovão.
Impossível! A tarde estava com um límpido e sereno céu azul anil.
Avistei ao longe nuvens negras-metálicas e uma forte ventania abalou a estrutura da casa, desfez toda a magia que estava no ar, assustou as crianças fazendo-as tremer de frio, e o zumbir do vento impediu-me, por instantes, de ouvir a canção. Minha alma enfurecia-se.
Ao pé dos majestosos ventos, vi o motivo de soprarem em tom de vingança. O redemoinho agora a pouco expulso de sua diversão – um tanto sádica – de atormentar o descanso das folhas, estava ali girando em tom superior, soprando blasfêmias contra as brisas.
Um duelo injusto. O pequeno redemoinho me dava nojo por ser tão cruel, se eu pudesse teria feito algo para impedir o início do acerto de contas, que estava mais pra mimo da cria dos ventos; mas me mover era algo que estava muito longe diante de toda essa excitação.
Os ventos investiram contra as brisas, fazendo o maior barulho e destelhando as casas que estavam no caminho. As brisas atordoadas por serem carregadas e prensadas contra um muro do outro lado da rua, que agora a pouco as crianças brincavam defronte ele, serpenteavam debilmente e ao recobrarem a consciência foram logo surpreendidas por outro ataque, mas deste houve uma esquiva inesperada e um lance aos céus. Elas pareciam querer evitar danos à rua e principalmente às folhas que ali descansavam. Minha guria não estava mais em brisa, ambas agora, lado a lado, sopravam ao ritmo da batalha, e a música parecia buscar acompanhamento para essa gélida confusão. Minha guria teria partido novamente?
Algumas folhas já podiam ser vistas despedaçadas sobre os carros ou partidas ao meio na sarjeta. Isso me aspirava mais rancor quanto ao redemoinho e seus parceiros de baderna.
Lá em cima nos céus a batalha continuou. E sem muito soprar ou uivar os ventos aniquilaram as brisas. A magia se quebrou. E com ela até a doce melodia do rádio parou de soar. E como uma volta olímpica, os ventos circundaram a arena na qual ouve a luta, impiedosa e injusta, e passaram em frente minha janela fazendo tudo voar e sacolejar.
O fogo se apagou e a janela se fechou. Levantei-me descrente de tudo aquilo que se passou. A energia voltará e o rádio sozinho pôs-se a tocar a mesma canção, apenas alguns segundos adiante de onde havia sido interrompida.
Avivei rapidamente o fogo, alimentei com novas achas, abri a janela e pus-me a sentar novamente na cadeira de balanço e observar a rua. O berreiro do vento ainda atormentava meus ouvidos e minha alma sentia o frio da perda. Como era possível, as brisas que tornaram deslumbrantes alguns minutos da minha tarde haviam desaparecido.
Todos os vizinhos colocando a cabeça janela a fora, poucos se arriscavam a sair. Parecia que um tornado havia passado por ali.
A esperança já ia se esvaindo, mas como o autor da bela canção que ainda tocava meu coração já dizia: “A última gota de esperança sempre é infinita”. Ao recordar da frase recordei novamente da noite em que todas as gotas de esperança em mim fugiram do compasso da minha vida melodiosa, e restou apenas a última gota. A última gota que aguardava a hora de encontrar novamente minha guria. Eu a vi novamente há alguns segundos, como uma ilusão, mas eu preciso sentir seu calor, preciso lhe tocar...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Brisas de Outono Pt. III

Encantado. Meu coração se encantava mais e mais com o rodopiar incansável das... Brisa se cansa? Uma brisa corta o mundo gelando ou aquecendo diversas almas, contando diversas estórias, de diversas partes do globo, poderia ela cansar e descansar ao tronco de uma árvore? Bom, se as brisas se cansam, as que eu presenciava a rodopiar eram magicamente incansáveis. Espero não esquecer dessa dúvida, quem sabe Camus possa me ajudar a responder quando encontrá-lo daqui a algum tempo passeando pelo Jardim do Éden...
As crianças contemplavam o vôo das folhas alaranjadas. A saia verde deixava um rastro luminoso, o mesmo acontecia com a bermuda amarelada e o chinelo azul.
Num espanto notei que os rastros luminosos criavam formas geométricas no ar. As folhas voavam agora por entre círculos e triângulos retângulos coloridos. E surgindo e escondendo-se entre todas as luzes também via criaturas, sim nesse momento senti calafrios, não de prazer, mas de espanto. Entre as cores brasileiras, Curupira assobiava recostado ora no muro, ora em cima da árvore; Iara mergulhava nos céus e Boitatá corria como o fogo-fátuo corre atrás do curioso que se arrisca a entrar no pântano. Mas a presença deles foi instantânea e logo as cores e luzes reinavam novamente.
Não demorou muito, as três cores que me eram muito familiares formavam as exatas formas da bandeira que tremulava lá longe, além mar, no Distrito Federal. Um retângulo verde dava base às peraltices das folhas a voar. O amarelo correu por entre as casas vizinhas e num salto caiu como um losango ouro no fundo verde amazônico. O azul ondulava e dava a impressão das crianças estarem a nadar, mas logo tomou forma de um perfeito círculo e meteu-se nas duas formas já em posição. Vi o mais belo jogo de luzes e cores sobre o telhado vizinho, e as crianças pareciam nem notar de tão entretidas que estavam sobre o domínio das folhas. Não acreditei. Por um momento tudo parecia um sonho, não podia ser real. As brisas que rodopiavam entre as cabeças das crianças serpentearam vertiginosamente até a linha do horizonte e voltaram tão rápido quanto a ida e mergulharam no azul do mar. No azul da bandeira. E lá tomou a imagem e o sorriso da minha guria - assim sempre a chamei desde de que nos conhecemos... - Ah! Bons tempos aqueles.
Fez-me um gesto, como se me pedisse paciência. Fiquei sem entender. Como era possível? O mesmo olhar, as rugas estavam em seus devidos lugares e agora junto ao hálito de liberdade senti o aroma de vinagre.
Minha guria sempre gostara de vinagre em todos os tipos de pratos – isso lhe dava certa peculiaridade divertida, mas devo confessar que por vezes tirava meu apetite –, então não poderia faltar na macarronada. E foi exatamente durante uma refeição noturna, uma macarronada temperada com vinagre que ela veio a falecer. Um misterioso infarto súbito.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Brisas de Outono Pt. II

Uma nova brisa chegou de surpresa arrepiando-me a nuca. A porta dos fundos estava aberta. Senti novamente a sensação de prazer e nostalgia, que me trazia lembranças da pátria querida.
O toque n’alma de ambas as brisas, completaram meu espírito, me elevando ainda mais a melodia da minha vida. Completaram a guria do meu coração que corria bipartida enfeitiçando e enaltecendo a paisagem.
Aquela cena tão especial, jamais vista por olhos descrentes, me tocava profundamente ao som da canção que meus ouvidos forçosamente apurados sorviam. Um outono perfeito para alcançar a paz eterna.
A chegada da nova brisa, tão terna e tropical quanto a outra, avivava lembranças da terra onde canta o sabiá.
E as brisas agora serpenteavam sem direção, livres de qualquer métrica que um dia possa ter aprisionado poetas ou músicos. Serpenteavam de cima pra baixo e de um lado pra outro, causando a mais calorosa confusão entre as folhas que não sabiam nem mais onde estavam de tanto rodopiar, cair e voar. Liberdade! Tocavam os céus, era possível ver a alegria das folhas, e mais estonteante ainda eram os sorrisos das crianças que se encantavam ao ver a liberdade em tom alaranjado e sentir o frescor aconchegante e caloroso das Brisas de Outono, que faziam jus a suas indumentárias.
Emocionei-me, e ainda me emociono ao lembrar, mesmo tão poucos minutos depois. Toda aquela confusão, todos aqueles sorrisos agitados, uma brincadeira já quase extinta e toda a sensação de liberdade em tão pouco tempo, em tão fração de melodia. Meu coração se encantava.
Obedeci ao que a canção pedia, respirei fundo e cantei aquele acróstico no melhor timbre e tom que nunca poderia alcançar em outonos normais:

“Brisa que faz sonho se realizar
Rodopia pelo ares sem se cansar
Imagine como uma brisa roda o mundo inteiro
Sábias estórias ela pode te contar
Assim que a ventania terminar este berreiro...”

Ah! Ao respirar fundo traguei o hálito selvagem de liberdade que perfumava minha sala, minha casa, a rua e não sendo exagero, talvez o país estivesse com a essência brasileira. Sim, agora mais do que nunca tenho certeza: as brisas eram da terra além mar chamada Brasil.
Como me fez bem soltar a voz. Estava tão excitado com tudo aquilo que vivenciava, sem contar toda a sensação de nostalgia que me trouxe boas recordações. Parecia um sonho. Sim! Um sonho de sonhador, mas ainda assim, um sonho.
Toda a magia em laranja profundo, todas as folhas a planar, as crianças a se divertirem e eu a viver um sonho de outono. Camus estava certo: “Outono é outra primavera: cada folha uma flor”. Ouvi essa frase quando passeava com minha avó por essas bandas, há muito tempo, era ainda uma criança. Ouvi de um mendigo que perambulava no parque com alguns livros debaixo do braço. Sei pouco sobre o autor da frase, creio que tenha vivido por aqui no milênio passado, por volta dos anos 40 e 50. O mendigo lhe adorava e parecia ter todas as suas frases na ponta da língua. Mas essa me chamou mais a atenção. Tanto que me lembro dela até hoje, e quem tem muitos anos a carregar como fardo sabe o quanto é difícil fazer a memória trabalhar. Pois bem, era minha realidade: cada folha uma flor. As mais belas flores que minhas dezenas de primaveras vividas não podiam sequer igualar em beleza e encantamento.

domingo, 28 de setembro de 2008

Brisas de Outono Pt. I

“Sinta a Brisa de Outono
Tocar seus cabelos e te levar
Deixe a Brisa de Outono
Levar essas folhas pra algum lugar
Veja a metamorfose das cores alucinar
Ouça a melodia da vida elevar”

Ao som da bela canção, que por certo descrevia a minha tediosa tarde de outubro, refletia sobre teorias existenciais e sorvia a doce melodia da música que ecoava na sala, vinda do rádio próximo à lareira. Rádio que fora posto lá por objeção de um amigo italiano catedrático em “som quadrifônico”.
Balela.
Ele nem sabia o que essas duas palavras significavam. Meu simples mini system tornou-se alvo de sua obsessão por conseguir melhor acústica. Bem... Talvez o tenha feito, pois o volume estava adequado para ouvidos que cansaram da labuta e a música soava tão nítida...
Mas fato é que a canção pintava um quadro da cena em que eu vivia – seguindo a métrica enjoada e preguiçosa do cair de folha das árvores –, transformando o meu tédio em melodia.
Acompanhava o tique-taque do relógio de bolso repousado no parapeito, bem ao nível dos meus olhos. O tiquetaquear se esforçava para ser ouvido por entre os acordes oriundos do já velho e ultrapassado mini system.
Ao ritmo da canção mesclado ao metrônomo descompassado, observava a preparação pro inverno que as árvores normalmente fazem nesse período do ano; porém, acreditava veemente que com o clima em estado febril e insano, a queda de todos os anos, bela e singular, viria atrasada novamente ou mesmo nem daria o ar de sua graça.
Olhando janela à fora via o mundo que nunca foi tão real, mas agora era todo ilusão. As folhas despencavam preguiçosamente, redemoinhos atormentavam o descanso daquelas que já sobreviveram à primavera e ao verão – raras são as folhas que atravessam o outono e ainda permanecem intocáveis no inverno. Na calçada do outro lado da rua, crianças pulavam corda trajadas de saias, regatas, bermudas e chinelos; elas acreditavam ainda estar no verão.
Uma leve brisa, quente e confortante, me lembrara muita uma manhã de meados do verão retrasado, no qual tive a oportunidade de ver o nascer do sol de um pequeno casebre na Serra Pelada ao lado de uma pessoa que me fora muito especial. Vivera comigo durante toda a vida e falecera no acampamento, na noite desse mesmo dia – talvez o italiano estivesse com a razão: o capítulo de aventuras nunca volta a ser folheado, não sem que alguém se machuque.
Não a via há dois anos, mas agora reencarnava em brisa. Tocou meu queixo, meu nariz, minha boca, tremulou os meus poucos fios grisalhos de cabelo, e não tardou muito tocou minha alma.

Tocou minha alma e arrepiou-me do Oiapoque ao Chuí; ai que saudades do meu Brasil, ai que saudades da minha guria... Ao tocar minha alma também tocou o mundo e a vida. Vi a brisa duelar com o redemoinho. Vi ambos tentar dominar as folhas, que indiferentes à batalha, apenas buscavam sossego e tranqüilidade.
Numa fração de segundos o redemoinho cedeu e dissipou-se e a brisa levou as folhas em direção às crianças que agora se divertiam não mais com a corda e sim com o revolutear das folhas em suas cabeças. As folhas estavam livres e planavam agora irrequietas e sorridentes. Alcançavam então a liberdade.
Tudo parecia tão mágico. As cores tão vivas dessa cena, acompanhadas do alaranjado típico de outono. A vida fluía em paz e feliz, a vida era elevada à melodia mais doce, que qualquer um pode possuir bastando acreditar e se deixar levar.
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