--- Frase de Agora! ---
"A água é para os escolhidos
Mas como podemos esperar que sejamos nós..
... eu e você?"

Máquina do Tempo: Vaga Viva do Coletivo Ideia Nossa. A única vaga viva do lado de cá da ponte =) Vaga Viva do Ideia Nossa

Destaque da Semana: Onde está o sol que estava aqui?
Ladrões de sol, crise hídrica e êxodo rural
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Ei! Banqueiro! Devolve o meu dinheiro!

Por Diogo Baeder (fotos por Auditoria Cidadã da Dívida - Núcleo SP)

Terça-feira, dia 15 de outubro de 2013, foi um dia marcado por manifestações diversas; ato pela educação, protesto do MTST na Câmara Municipal de São Paulo e a manifestação da qual participei, em defesa da auditoria cidadã da dívida pública. Um dos pontos mais interessantes disto é que as primeiras duas manifestações que mencionei são lutas contra problemas sociais que, em boa parte, são decorrentes de problemas explicitados pela terceira manifestação.

Palestra

Na parte da manhã fomos agraciados por uma palestra, na Câmara Municipal (antes que o protesto do MTST tivesse chegado lá), a respeito da dívida pública do Município de São Paulo. Todos os vereadores foram convidados mas, dentre estes, apenas o Vereador Toninho Vespoli (PSOL) esteve presente. Não fomos informados do motivo da ausência dos outros vereadores.

Ministraram a palestra os ativistas Mauro Alves da Silva, Carmen Bressane, Marco Ferreira e o próprio Vereador Toninho. Mauro fez uma breve introdução à palestra e ao assunto, Carmen falou um pouco mais sobre a dívida pública da União, e Marco entrou na história e detalhes econômicos da dívida municipal - como ela se formou, quais foram as falcatruas engendradas pela dupla Maluf/Pitta que fizeram com que a dívida aumentasse ainda mais, como poderíamos diminuir a dívida da cidade através de auditoria e mudança de índices econômicos para refinanciamento e outros aspectos -.

Carta ao Prefeito

Dirigimo-nos, depois, à Prefeitura, para protocolar carta ao Prefeito solicitando providências do mesmo para que a auditoria da dívida municipal seja instaurada.

No caminho, fizemos uma parada para estender a faixa da manifestação por uma passarela, na tentativa de expor o assunto a mais cidadãos.

Pausa para almoço e preparação para a manifestação, que daria início na parte da tarde.

A Manifestação

Chegamos no vão do MASP, onde já se encontravam algumas pessoas se concentrando para o Ato. Não demorou muito e a turma da bateria chegou para animar ainda mais o clima que já estava muito positivo. Alguns se preocuparam com os pedidos da Polícia Militar por documentos, mas aparentemente nada fora do padrão de atuação do órgão, que alegou estar presente para prover segurança à manifestação.

Estava presente, na manifestação, Marcelo Aguirre, assessor de Ivan Valente (PSOL), para nos dar apoio e ajudar a engrossar a massa. Pessoa simpaticíssima, fiquei batendo um papo com ele e conhecendo um pouco mais sobre sua corrente no Partido.

Decidimos tomar parte da Paulista e andar em direção à Praça do Ciclista; acertamos com a PM que a manifestação ocuparia as faixas de carro da Avenida, deixando a de ônibus livre.

Fizemos breves paradas quando passamos por agências bancárias, para provocações diversas - algumas divertidas, outras mais ácidas, como as dirigidas ao banco Itaú -.

O ápice da manifestação foi quando chegamos no Banco Central; resolvemos parar por lá por mais tempo, para deixarmos clara nossa mensagem para a instituição.

Desfecho

Chegando na Praça do Ciclista, estendemos a faixa no chão, e conversamos um pouco mais, convocando os manifestantes para participarem mais ativamente do Núcleo de SP para que possamos fortalecer a propagação de conhecimento acerca deste assunto, que é tão caro à sociedade brasileira.

Toda a manifestação ocorreu na maior tranquilidade, tendo sido absolutamente pacífica em todo o seu trajeto; a única violência cometida foi aquela continuamente praticada pelo conluio entre Governo Federal, Banco Central e bancos privados, que farão com que, no ano de 2014, mais de 42% do dinheiro do nosso país vá para as mãos destes bancos, em vez de serem investidos em áreas sociais - entre elas Educação, para nossos professores e estudantes, e Moradia, para nossos irmãos e irmãs do MTST -.

Queremos auditoria da dívida pública já!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Comum a todos Ou Comunismo?

Por Felipe Cruz do Peleja Cultural

Ouso acreditar num mundo utópico. Onde a pessoas sejam socialmente iguais e humanamente diferentes e, portanto livres.

Em que elas possam realizar aquilo que gostem de fazer. E não aquilo que sejam obrigadas a fazer.

Um lugar em que as pessoas possam ser elas mesmas sem mentiras pra si. E, consequentemente, que isso seja benéfico tanto a elas quanto à sociedade.
Sem a ideia pré-estabelecida pelos economistas clássicos que se aproveitam do viés que define a natureza do Homem como perversa.

Tal qual é pintada até os dias atuais por muitos (ou quase todos).
• A natureza humana é individualista.
• A natureza humana é egoísta,
• A natureza humana é por sua essência cruel.
• …

Prefiro pensar que o que faz do Homem individualista é o fato dele acreditar que ao educar seu filho, mostrar o que é certo e errado contando com que os outros pais também o façam, seja o suficiente para que do individual se desenvolvam bons frutos para a sociedade. Ou seja, se deparar com o conceito que educação, respeito, humildade, altruísmo e todas as “qualidades” e “benesses” sociais se fazem primeiramente em casa sem se preocupar com o que ocorre no exterior. Afinal, no que isso ajuda?

Prefiro acreditar que o Homem é egoísta por possuir algo em que ele crê ser de valor e, automaticamente, se envaidece de tê-lo. Logo, não pode esperar que outro a valorize tanto quanto ele. Ou que exista algo que a substitua.

Prefiro idear que o Homem é cruel em decorrência desse mercado capital ser uma extensão dessa suposta natureza humana em que o consumismo desenfreado submete o querer, o sonhar alto, o prosperar a qualquer custo.

Cria-se o sentimento de revolta. Por que ele merece ter aquilo que eu não posso ter? Ele realmente trabalhou mais do que eu pude por isso? Por que crer que existe um ser superior que dará o que todos merecem no tempo certo? Mas afinal, por que me fazem acreditar que não estou no tempo certo?
Perguntas que seriam extintas se houvesse o respeito mútuo, o bem estar social recíproco, as mesmas chances de caminhar sobre os obstáculos impostos pela vida.

E quando você disser que estou louco e que isso nunca será possível. Eu lhe respondo:

Ouso acreditar num mundo utópico. Onde a pessoas sejam socialmente iguais e humanamente diferentes e, portanto livres…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Crise terminal do capitalismo?

Crise terminal do capitalismo?


Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adapatar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha, o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugual 12% no pais e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos paises periféricos. Hoje é global e atingiu os paises centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamene nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente, criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários paises europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

*Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra-cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Moedas Sociais e os Bancos Comunitários ainda estão num vácuo jurídico e legal

Moedas Sociais e os Bancos Comunitários ainda estão num vácuo jurídico e legal

Em entrevista, o técnico do Instituto Pólis Adriano Borges Costa explica o que são os bancos comunitários e os principais desafios destas experiências hoje

O que é uma moeda social?

A moeda social possui duas principais funções dentro de uma comunidade. Uma econômica, e outra cultural, ligada à identidade local.

Primeiramente, a moeda social é um circulante local, ou seja uma moeda que só vale para aquela região. O objetivo dela é estimular e fortalecer a economia local, os pequenos comércios: fazer com que em uma região, onde não há muito dinheiro (dinheiro mesmo, de papel, moeda mesmo), exista um objeto de meio de troca para possibilitar ou facilitar as trocas.

Um exemplo: tem uma pessoa nesta comunidade que faz pão, tem uma estrutura simples e ela consegue produzir uma quantidade razoável de pães por dia, mas de forma artesanal, não industrial. Na rural, há um produtor, que vive na subsistência, mas cuja produção consegue gerar uma sobra além do seu consumo familiar. Ambos possuem sobras das suas produções, e ambos também gostariam de ter a parte que sobrou do outro, e no entanto os dois não comercializam e não fazem essa troca (o excedente de hortaliças e o excedente de pães). Eles não trocam
justamente porque não tem dinheiro naquela comunidade, falta o meio de troca, falta dinamismo na economia local. Era essa a função inicial do dinheiro: potencializar as trocas de produtos, de forma que os produtos possam ser mais úteis.

Então a moeda social entra para isso: para estimular esse tipo de troca que não acontece justamente porque há uma escassez de moeda naquela comunidade. Ela estimula o comércio local, estimula que as pessoas compram e vendam na sua própria região. Ela estimula que alí se crie circuitos curtos de comercialização, produção e consumo e deixe de ser uma economia
exclusivamente dependente de outras regiões.

A outra função da moeda social, como falei, é a da identidade naquela região. Toda moeda social tem um nome vinculado a um elemento local. No Banco dos Cocais, por exemplo, a moeda se chama “cocal”, pois naquela região tem toda uma tradição das quebradeiras do coco. Todo o Banco é voltado pra identidade regional, e a moeda é a forma mais concreta desse simbolismo.

A que modelo econômico ela se contrapõe?

Tem um contraponto fundamental entre o sistema hegemônico e o que essas experiencias de bancos comunitários trazem de proposta: a prática financeira. A lógica hegemônica, dos grandes bancos, é captar a poupança da população em geral, e emprestar buscando as taxas de inadimplência mais baixas possíveis. O problema é que essa lógica faz com que as pessoas que conseguem empréstimos sejam justamente as pessoas que não precisam deste empréstimo, pois possuem garantias para oferecer, estudos técnicos e mostram que já, previamente, podem pagar este empréstimo. E quem precisa de empréstimo? Aquele que já tem recurso?

Outro ponto: essa lógica da moeda de circulação livre gera concentração da presença de moedas em algumas regiões.
Explico: Temos uma moeda nacional que circula livremente por todas as regiões do país e isso faz com que haja uma concentração de moeda pela concentração econômica, que faz com que a produção se concentre em localizações que possuem infraestrutura e condições privilegiadas de produção. Isto concentra a economia em determinadas regiões e acaba com as pequenas produções locais. – Temos no Brasil regiões onde se concentra a produção e grandes áreas praticamente sem produção comercial, que vivem de subsistência. Isto se reflete na situação de moedas: a moeda chega nestas regiões com definhamento econômico por sistemas de transferência de renda e voltam automaticamente para as regiões de concentração econômica, através de consumo de produtos e serviços. Isso acontece também por meio dos créditos, pois os bancos tem suas estruturas de captação de poupança nestas pequenas cidades, mas os empréstimos são sempre feitos para pessoas ou empresas que estão nas grandes cidades e que têm condições prévias de pagar.

Como os bancos comunitários se contrapõem à isso?

Os bancos comunitários fazem contraponto à isso a medida em que fazem pequenos empréstimos baseados em sistemas de avaliação que usam formas de verificação da capacidade de pagamento baseado na reputação que o sujeito tem na comunidade. Não consultam o SPS ou o SERASA. O sistema de verificação é baseado na conversa com a comunidade. Isso faz com que um mundo de pessoas tenham acesso ao crédito que no sistema bancário não tem porque não tem garantias, não tem bens para dar de garantia, não tem emprego, não tem fiador...
O banco comunitário por sua vez, prevê que o crédito seja pago, porque disso depende a sua sustentabilidade financeira, no entanto faz uma análise qualitativa da capacidade do sujeito de pagar estes empréstimos e não exige taxas absurdas de retorno e excluem a maioria da população.

Além disso, os bancos comunitários levam os serviços bancários a comunidades indígenas, a pequenas cidades, às periferias das grandes cidades onde não existem bancos comerciais. Os bancos comerciais não chegam lá porque não é viável economicamente montar uma agencia, um gerente, com todas as regalias que os bancos criam em suas agencias.

Como são as políticas públicas neste campo?

Não existem políticas públicas para os bancos comunitários. Os bancos comunitários aproveitam, “na tangente”, algumas políticas públicas que foram criadas. Uma delas é o bolsa família, uma vez que muitas pessoas hoje podem sacar seus benefícios nos bancos comunitários, não precisando sair de suas comunidades. Uma outra é a Política Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, que destina recursos para microcréditos, mas que não foi feita para bancos comunitários, é um modelo mais comercial, mas os bancos comunitários souberam aproveitar essa política e acessar estes recursos. Além disso, há os projetos ligados à economia solidária, no entanto não existe uma política pública voltada para os bancos comunitários. Os bancos comunitários não tem uma figura jurídica própria, uma regulamentação específica. As moedas sociais foram reconhecidas pelo banco central como uma forma legal, no entanto não possui uma regulamentação específica, então hoje os bancos comunitários estão num vácuo jurídico e legal de atuação. Existe uma lei elaborada pela Luiza Erundina que está em tramitação, desde 2007, que busca regulamentar os bancos comunitários. No entanto está parada, não foi aprovada.

Qual é o novo paradigma que se propõe?

O principal paradigma que é quebrado pelos bancos comunitários, e pela economia solidária como um todo, é o paradigma da maximização de retorno sobre o capital. Através do microcrédito, por exemplo, não se busca maximizar o retorno sobre este capital emprestado. Só de quebrar este pressuposto conceitual e prático estamos incluindo uma série de pessoas que estavam excluídas daquele sistema de créditos.

A segunda quebra é reconhecer a importância, a capacidade que existe em iniciativa que surgem em pequenas comunidades e como isso pode tornar o sistema mais eficiente, de produção, de consumo, de crédito. É olhar para a comunidade e ver que alí, iniciativas que surgem “de baixo para cima”, a partir de atores no local, podem ser mais eficientes em termos de produtividade sistêmica dos resultados, ao invés de iniciativas que são “de cima para baixo”, comerciais, em larga escalada, padronizadas e executadas e implantadas em uma tacada só.

Na lógica da economia solidária, iniciativas comunitárias tem legitimidade para atuar no local, tem acúmulo, respeito e capacidade de mobilização que a gente pode chamar, apesar da contradição que tem no nome, de “capital comunitário”.

Confira a publicação Novos Paradigmas de Produção e Consumo - Experiencias Inovadoras organizada por Adriano Borges Costa e Leandro Morais

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ecossocialismo. Por uma ecologia socialista. Entrevista especial com Michael Löwy

De volta ao plano virtual! Post novo no blog. Aos leitores novos e veteranos sejam bem vindos e boa leitura!

Bom, pessoal... Nas últimas semanas estivemos organizando o plantio comunitário realizado no quarteirão da escola EMEFEM Rui Barbosa (que em breve postaremos relato e fotos) e o blog ficou inerte. Estou com uma lista enorme de assuntos para jogar na roda de discussão e para recomeçar resolvi escolher um que tem tudo a ver com o evento que realizamos ontem de manhã.

Faz um tempinho que estou para postar sobre ecossocialismo. Já até tinha separado um artigo sobre o assunto, mas acabei perdendo o link.

Navegando no meu reader acabei encontrando uma excelente entrevista com o Michael Löwy no Combate ao Racismo Ambiental e resolvi postar aqui antes que perdesse o link novamente.

Está na mesa dois assuntos que sempre me interessei e que estão presente em diversas discussões aqui do blog: meio ambiente e economia, ou restringindo o funil: ecologia e socialismo.

Já afirmamos diversas vezes que nosso atual modelo econômico é falho e que precisa ser reformulado, e discutir os ideais já apresentados ao longo da história é uma ótima maneira de chegarmos a um novo modelo "político-econômico-social-ambiental"!

Também já afirmamos várias vezes que a preocupação com o ambiente em que vivemos é fundamental e deve estar sempre locado como plano de fundo em todas as tomadas de decisão.

Pois bem, a entrevista trata justamente destes temas e todos os links sugeridos abaixo por mim, ou no final do post pelo google se completam e valorizam esta leitura.

Para os curiosos e àqueles que possui sede de conhecimento segue o Manifesto Ecossocialista Internacional, retirado do Democracia Socialista.

Uma ótima leitura e até o próximo post!

Dicas de leitura:

@alvarodiogo "Compartilhe suas ideias"

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Ecossocialismo. Por uma ecologia socialista. Entrevista especial com Michael Löwy

A crise ecológica abre a possibilidade para um novo projeto político, econômico e social: o ecossocialismo, defendido pelo sociólogo brasileiro, radicado na França, Michael Löwy. A ideia central da proposta é romper com o capitalismo e transformar as estruturas das forças produtivas e do aparelho produtivo. “Trata-se de destruir esse aparelho de Estado e criar um outro tipo de poder. Essa lógica tem que ser aplicada também ao aparelho produtivo: ele tem que ser, senão destruído, ao menos radicalmente transformado. Ele não pode ser simplesmente apropriado pelos trabalhadores, pelo proletariado e posto a trabalhar a seu serviço, mas precisa ser estruturalmente transformado”, esclarece.
Crítico ao capitalismo verde, que pretende transformar o capital e torná-lo menos agressivo ao meio ambiente, Löwy acredita que a crise ecológica é mais grave do que a econômica, pois “coloca em perigo a sobrevivência da vida humana neste planeta”. Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ele enfatiza que é preciso reorganizar o modo de produção e consumo, atendendo “às necessidades reais da população e à defesa do equilíbrio ecológico”. As economias emergentes devem se desenvolver, mas não precisam “copiar o modelo de desenvolvimento capitalista do Ocidente”, aconselha. “Se trata de buscar um outro modelo, um desenvolvimento ecossocialista, baseado na agricultura orgânica dos camponeses e nas cooperativas agrárias, nos transportes coletivos, nas energias alternativas e na satisfação igualitária e democrática das necessidades sociais da grande maioria”.

Michael Löwy é cientista social e leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da Universidade de Paris. Entre sua vasta obra, destacamos Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista (São Paulo: Cortez, 1985); As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (São Paulo: Cortez, 1998); A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002); Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” (São Paulo: Boitempo, 2005) e Lucien Goldmann, ou a dialética da totalidade (São Paulo: Boitempo, 2005). Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o senhor entende por ecossocialismo? Quais as ideias principais dessa corrente?

Michael Löwy – O ecossocialismo é uma proposta estratégica que resulta da convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista, a reflexão marxista. Existe hoje em escala mundial uma corrente ecossocialista: há um movimento ecossocialista internacional, que recentemente, por ocasião do Fórum Social Mundial de Belém (janeiro de 2009), publicou uma declaração sobre a mudança climática; e existe no Brasil uma rede ecossocialista que publicou também um manifesto, há alguns anos. Ao mesmo tempo, o ecossocialismo é uma reflexão crítica.

Em primeiro lugar, crítica à ecologia não socialista, à ecologia capitalista ou reformista, que considera possível reformar o capitalismo, desenvolver um capitalismo mais verde, mais respeitoso ao meio ambiente. Trata-se da crítica e da busca de superação dessa ecologia reformista, limitada, que não aceita a perspectiva socialista, que não se relaciona com o processo da luta de classes, que não coloca a questão da propriedade dos meios de produção. Mas o ecossocialismo é também uma crítica ao socialismo não ecológico, por exemplo, da União Soviética, onde a perspectiva socialista se perdeu rapidamente com o processo de burocratização e o resultado foi um processo de industrialização tremendamente destruidor do meio ambiente. Há outras experiências socialistas, porém, mais interessantes do ponto de vista ecológico – por exemplo, a experiência cubana (com todos seus limites).

O projeto ecossocialista implica uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população – e não as leis do mercado ou um “burô político” autoritário – decide, num processo de planificação democrática, as prioridades e os investimentos. Esta transição conduziria não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.

IHU On-Line – Em que consiste o Manifesto Ecossocialista Internacional?

Michael Löwy – O Manifesto Ecossocialista Internacional, redigido em 2001 por Joel Kovel e por mim, foi uma primeira tentativa de resumir, em algumas páginas, as ideias principais do ecossocialismo, como projeto radicalmente anticapitalista e antiprodutivista, e como crítica às experiências socialistas não ecológicas do século XX.

IHU On-Line – A tentativa de aplicar o socialismo no mundo fracassou. Será possível vingar o ecossocialismo? Por quê?

Michael Löwy – As experiências de corte social-democrata fracassaram porque não sairam dos limites de uma gestão mais social do capitalismo e, nos últimos anos do neoliberalismo, as experiências de tipo soviético ou stalinista fracassaram por ausência de democracia, liberdade e auto-organização das classes oprimidas. As duas tinham em comum uma visão produtivista de exploração da natureza, com dramáticas consequências ecológicas.

O ecossocialismo parte de uma visão crítica destes fracassos e propõe um projeto democrático, libertário e ecológico. Nada garante que possa vingar. Depende das lutas ecossociais do futuro.

IHU On-Line – Sob quais aspectos a crise ecológica é mais grave do que a econômica?

Michael Löwy – A crise econômica tem consequências sociais dramáticas – desemprego, crise alimentar etc. –, mas a crise ecológica coloca em perigo a sobrevivência da vida humana neste planeta. O processo de mudança climática e aquecimento global, provocado pela lógica expansiva e destruidora do capitalismo, pode resultar, nas próximas décadas, numa catástrofe sem precedente na história da humanidade: desertificação das terras, desaparecimento da água potável, inundação das cidades marítimas pela subida do nível dos oceanos etc.

IHU On-Line – Como pensar em ecossocialismo se a Modernidade é capitalista? Seria o ecossocialismo uma proposta para romper com o capital?

Michael Löwy – Absolutamente! Uma das ideias fundamentais do ecossocialismo é a necessidade de uma ruptura com o capitalismo. Uma ruptura que vai mais além de uma mudança das relações de produção, das relações de propriedade. Trata-se de transformar a própria estrutura das forças produtivas, a estrutura do aparelho produtivo. Há que aplicar ao aparelho produtivo a mesma lógica que Marx aplicava ao aparelho de Estado a partir da experiência da Comuna de Paris, quando ele diz o seguinte: os trabalhadores não podem apropriar-se do aparelho de Estado burguês e usá-lo a serviço do proletariado; não é possível, porque o aparelho do Estado burguês nunca vai estar a serviço dos trabalhadores.

Então, trata-se de destruir esse aparelho de Estado e de criar um outro tipo de poder. Essa lógica tem que ser aplicada também ao aparelho produtivo: ele tem que ser, senão destruído, ao menos radicalmente transformado. Ele não pode ser simplesmente apropriado pelos trabalhadores, pelo proletariado e posto a trabalhar a seu serviço, mas precisa ser estruturalmente transformado. É impossível separar a ideia de socialismo, de uma nova sociedade, da ideia de novas fontes de energia, em particular do Sol – alguns ecossocialistas falam do comunismo solar, pois entre o calor, a energia do Sol e o socialismo e o comunismo haveria uma espécie de afinidade eletiva.

IHU On-Line – Como o ecossosialismo pode se sustentar em economias emergentes, que ainda não conquistaram um status de bem-estar social das economias desenvolvidas?

Michael Löwy – As economias dos países do Sul, da Ásia, África e América Latina devem se desenvolver, mas isto não significa copiar o modelo de desenvolvimento capitalista do Ocidente e seu padrão de consumo insustentável. Trata-se de buscar um outro modelo, um desenvolvimento ecossocialista, baseado na agricultura orgânica dos camponeses e nas cooperativas agrárias, nos transportes coletivos, nas energias alternativas e na satisfação igualitária e democrática das necessidades sociais da grande maioria. O modelo ocidental não so é absurdo e irracional, mas não é generalizável: se os chineses quisessem imitar o American way of life, cinco planetas seriam necessários.

IHU On-Line – A humanidade deve preocupar-se com o ecossocialismo ou com o capitalismo verde?

Michael Löwy – O capitalismo verde é uma contradição nos têrmos. A lógica intrinsecamente perversa do sistema capitalista, baseada na concorrência impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida pelo lucro rápido, é necessariamente destruidora do meio ambiente e responsável pela catastrófica mudança do clima. As pretensas soluções capitalistas como o etanol, o carro elétrico, a energia atômica, as bolsas de direitos de emissão são totalmente ilusórias.

Os acordos de Kyoto, a fórmula mais avançada até agora de capitalismo verde, demonstrou-se incapaz de conter o processo de mudança climática. As soluções que aceitam as regras do jogo capitalista, que se adaptam às regras do mercado, que aceitam a lógica de expansão infinita do capital, não são soluções, são incapazes de enfrentar a crise ambiental – uma crise que se transforma, devido à mudança climática, numa crise de sobrevivência da espécie humana. Como disse recentemente o secretário das Nações Unidas, Ban Ki Moon: “Estamos correndo para o abismo com os pés colados no acelerador”.

IHU On-Line – Em que sentido a crise ecológica atual pode ser entendida como um problema de luta de classes?

Michael Löwy – Por um lado, a crise ecológica é um problema de toda a humanidade, pessoas de várias classes sociais podem se mobilizar por esta causa. Por outro lado, as classes dominantes são cegadas por seus interesses imediatos, pensam exclusivamente em seus lucros, sua competitividade, suas partes de mercado e defendem, com unhas e dentes, o sistema capitalista responsavel pela crise. As classes subalternas, os trabalhadores da cidade e do campo, os desempregados, o pobretariado têm interesses conflitivos com o capitalismo e podem ser ganhos para o combate ecossocialista. Não se trata de um processo inevitável, mas de uma possibilidade histórica.

IHU On-Line – Nas últimas conferências do clima, em Copenhague e Cancun, os movimentos sociais e ambientalistas fracassaram? Por que não se vê perspectiva de avançar nas lutas ambientais?

Michael Löwy – O que fracassou em Copenhague e Cancun foram as políticas dos governos comprometidos com o sistema, que demonstraram sua total incapacidade de tomar qualquer decisão, mesmo a mais ínfima, no sentido de buscar reduzir significativamente as emissões de CO2, responsáveis pelo aquecimento global.

A manifestação de cem mil pessoas nas ruas de Copenhague nem 2009, protestando contra o fracasso da conferência oficial, com a palavra de ordem “Mudemos o sistema, não o clima”, é um primeiro passo, alentandor, no sentido de uma mobilização ecológica radical. Ainda estamos longe de ter uma luta ecológica planetária capaz de mudar a relação de forças e impor as drásticas mudanças necessárias. Mas esta é a única esperança de evitar a catástrofe anunciada.

IHU On-Line – Considerando o contexto de capitalismo exacerbado, acredita que as pessoas estão preparadas para o ecossocialismo?

Michael Löwy – Existe um sentimento anticapitalista difuso na América Latina, na Europa e em outras partes do mundo. O movimento altermundialista é uma das expressões disto. Por outro lado, cresce a consciência ecológica, a preocupação com as ameaças profundamente inquietantes que representa a mudança climática. Mas é no curso das lutas ecossociais contra as multinacionais destruidoras do meio ambiente e contra as políticas neoliberais que poderá surgir uma perspective ecossocialista. Não há nenhuma garantia; é apenas uma possibilidade, mas dela depende o futuro da vida neste planeta.

IHU On-Line – Qual é o papel das populações originárias como os indígenas e quilombolas na consolidação do ecossocialismo?

Michael Löwy – Em toda a América Latina – mas também na América do Norte e em outras regiões do mundo – as populações indígenas estão na primeira linha do combate à destruição capitalista do meio ambiente, em defesa da terra, dos rios, das florestas, contra as empresas mineiras, o agronegócio e outras manifestações da guerra do capital contra a natureza. Não por acaso os indígenas tiveram um papel determinante na organização da Conferência de Cochabamba em Defese da Mãe Terra e contra a Mudança Climática, em 2010, que contou com a participação de dezenas de milhares de delegados de comunidades indígenas e movimentos sociais. Temos muito a aprender com as comunidades indígenas, que representam outra visão da relação dos seres humanos com a natureza, totalmente oposta ao ethos explorador e destruidor do mercantilismo capitalista. Como diz nosso companheiro, o histórico lider indígena peruano Hugo Blanco: “Os indígenas já praticam o ecossocialismo há séculos!”
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