--- Frase de Agora! ---
"A água é para os escolhidos
Mas como podemos esperar que sejamos nós..
... eu e você?"

Máquina do Tempo: Vaga Viva do Coletivo Ideia Nossa. A única vaga viva do lado de cá da ponte =) Vaga Viva do Ideia Nossa

Destaque da Semana: Onde está o sol que estava aqui?
Ladrões de sol, crise hídrica e êxodo rural
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terça-feira, 1 de abril de 2014

Parabéns pra você!

Por Rodrigo Martins

Parabéns pra você, nestes 50 anos queridos! 

A festa está marcada, muitos convidados, o bolo é uma bola de futebol, assim poderemos saborear com muitos gritos de gol na hora de apagar as velinhas!

O convite é destes da última geração, onde as imagens do fantástico mostravam polícia junto com o exército, marinha, aeronáutica tomando a comunidade da Maré, e após a mágica tomada - em 15 minutos acabaram com uma história de anos de crime - então, eles levaram as crianças para conhecer dentro dos “caveirões” e andar a cavalo, usando as boinas policiais. Confesso que tive a impressão de ter voltado na história e estar observando os Jesuítas catequizando os índios.

E então a festa começou...

Primeiro a chegar foi a polícia. Eles queriam saber se estava tudo em ordem e progresso. E então começaram recolhendo os CDs e DVDs piratas, após prenderem uns usuários de maconha que tinha por lá. Em seguida acharam uns ladrões de carros e limparam geral, até um negro ator da globo saiu algemado, para provar a ação, o helicóptero cheio de drogas foi apreendidos, mas não tinha dono.

Em seguida chegou a mídia, cheia de pompa, já chegou falando, primeiro deixou claro que as manifestações na festa não daria certo, para provar que estava certa repetiu diversas vezes o foguete que matou o cinegrafista. Como sempre bem vestida, mostrou os avanços. Eike Batista que foi o apresentador. O Mc Donald´s e a Coca Cola tentou entrar junto mas não passaram na porta, o filho de Eike passou direto, não deu tempo de frear. 

Quem chegou em seguida foi o governo. Chegou na Hillux nova da PM e deixou claro que as ações estão corretas e que a maconha é proibida, isso que é vendido na porta da sua casa é uma ilusão de ótica. Ao entrar não fez questão de cumprimentar a Educação, disse que é “Um bando de vagabundos” e se encher o saco, falando de saúde, transporte, cultura, esporte, etc. já ia chamar quem resolvesse o problema: cassetetes novos, carros com jato d´aguá e a nova lei anti terrorismo. E esse papo de moradias já, já vamos dar um jeito, com toda a licença, mas a democracia precisa de estacionamento para a copa.

Saltitantes chegaram os Políticos. Os carros era todos importados, as fichas criminais também, prometeram uma nova democracia, esta estava velha. Discursaram por horas, mostraram imagens e depoimentos que pensamos estar na festa errada. Promessas de reforma eleitoral, reforma no judiciário, leis mais duras, e melhores salários para eles. (O último eles cumpriram)

Tarda mais não falha! Chegou a madame justiça, essa chegou por último (como sempre) escolheu quem cumprimentar, deu habeas corpus para uns, liminar para outros e uns mais especiais tiveram habeas corpus preventivo, mas saíram muitas liminares determinando entrar em todas as casas suspeitas da comunidade da Maré (O que seria uma casa suspeita?!). Não contente, julgou em tempo Record presos em protestos. Prendendo a todos, determinando uma limpeza étnica na sociedade, em especial a comunidade do Pinheirinho.

E então lá vem o povo, quando chegou na porta não pôde entrar, já estava cheio...  E então, uns ficaram amarrados nos postes e não conseguiram se soltar a tempo, outros estavam batendo em quem bateu em alguém e as mulheres estavam vestidas “pedindo para serem estupradas”. Foi então que começaram a acabar com os 3´Ps (Pobre, Preto e Puta), assim, ficaria mais fácil de lidar com a sociedade. 

Bom, mesmo ao lado de fora o parabéns saiu...

O bolo acabou rápido, só foi para os convidados! 

E hoje é o dia de dizer parabéns, afinal não se faz 50 anos todos os dias. Então lá vai...

“Parabéns coronéis vocês venceram outra vez, o congresso continua a serviço de vocês...”

O golpe de 64, em resumo. Por Carlos Latuff

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Gigante Caiu do pé de Feijão

Texto: Douglas Nascimento / Fotos: Agência Latente

O rumo que se segue toda essa "coisa linda" está me preocupando.
A cidade é nossa, mas quem somos nós mesmos?

É tudo muito lindo, tudo muito empolgante, mas... afinal, sobre o que era mesmo que a gente protestava? contra o aumento? Ótimo, legal...mas... ou será que...

Não, não... era contra a corrupção... isso, era contra corrupção... isso, tem que cair a Dilma e o Haddad... (oi?) e leva o Lula junto...

Não, espera, era contra os partidos esquerdistas que sempre estiveram em manifestações e levantando a bandeira pela minoria, que não poderiam fazer parte da manifestação... issooo era isso...malditos comunas... não, espera... ixi, confundi tudo!

Pela redução dos impostos dos eletrônicos portáteis?
Ahhh lembrei, era contra redução de impostos, isso, agora sim, redução de impostos, afinal, pagamos impostos demais nos iphones que nos fotografam para depois postar no instagram... isso, era isso...

Aprendemos a ir para as ruas, agora só falta um foco, só falta um objetivo, e além de tudo, um ideal a seguir...


... Estou pulando contra o quê? Quais as consequências do meu pulo, do meu grito, do meu canto?...


As  manifestações, ok, força,  mas meu senso crítico me alertou que algo está estranho...

Há muitas causas a serem defendidas e manifestadas, claro, sem dúvida, menos carros, mais bikes, menos felicianos, mais amor, menos carne, mais vegetais (rs), fora bancada ruralista, fora bancada religiosa, cadê o estado laico? Legalização do aborto? Cadê? ... 

Mas precisa-se pensar que o eco de um grito, pode causar uma avalanche.

Presenciei segunda, presenciei terça... nada como provar para saber o gosto que tem...

Temos um gigante que saiu de um quadro do Escher, no qual ele acorda, vai pra frente do computador e na tela ele vê um gigante acordando e indo pra frente do computador, na qual tem um gigante indo pra frente da tela do computador... e assim vai, acordou, mas não sabe o que vai fazer durante o dia... a periferia nunca dormiu.

Está claro que tornou-se uma massa manipulável, facilmente maleável, como abelhas chamadas a um copo de refrigerante a céu aberto. 

Quem representa quem?
Sequer é refletido que a grande mídia sempre dá o seu jeitinho de manipular, sempre tem seu momento oportuno para aparecer e, ao melhor estilo criacionista, fazer brotar a manchete. Bem ela que sempre oferece os quinze minutos de fama, já foi mais que suficiente... tecendo ataques, enquanto ela própria fora atacada... mas quem precisa saber né!?...

A sofrida classe média paulistana que só fazia reclamar dos impostos pelo facebook,  finalmente vai às ruas: “Sim, saímos do facebook”, nossa chance!

Brado retumbante!

V de Vinagre
Belo exemplo de fascismo democracia estamos tendo, onde a jovem militância de um partido o qual sempre lutou pelas causas da minoria é enxotado a socos e ponta pés com seus estandartes queimados... queimar uma bandeira é queimar um ideal, tornado às cinzas por quem acordou pro mundo a cinco minutos e já quer estar em Marte. 

A proposta não é ser partidário, mas sim lutar por uma justiça, não ser oportuno e ver que o irmão que está do lado, não está em cima, mas justamente do lado, vejo milhões de máscaras do V, mas atrás da máscara, tem um “B” bem grande, de burro, pois se queriam fazer estrago mesmo, teriam que colocar a máscara do Brad Pitt no “clube da luta” e explodir todos os bancos, a fonte da desigualdade, reclamar de impostos é nada menos do que olhar para o próprio umbigo e vestir a camisa da sofrida classe média futebol clube.

Perdeu o sentido pra mim, quando a gigante ergue a faixa, assinada como #mooca, rsrs “má ôe, olha a caravana da Mooca!” pedia o fim dos impostos. Pronto, não é mais tarifa absurda e condições precárias no transporte, a questão agora é, o que fazem com o meu dinheiro... meu dinheiro, dinheiro, dinheiro...tudo gira em torno de dinheiro, alega-se, não são por apenas 20 centavos, são 20 razões... alguém me mostra as outras 19?

A que dizia respeito ao imposto eu achei...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Todo carnaval é assim


por Douglas Gomes

Escreverei.  

Minha primeira contribuição para com a nova rede social de compartilhamento de ideias!!!

É curto, mas quero com isso alertar para que fiquemos atentos! Não deixem seus ouvidos virarem uma privada!
"Nos assista!"
Hoje pela manhã (terça, 22) enquanto me arrumava para ir trabalhar, meus pais já estavam acordados vendo (reparem que escrevo vendo e não absorvendo) o noticiário que se passa pela manhã em um canal globalmente conhecido. Uma das primeiras notícias que ouvi foi sobre uma paralisação em uma montadora, na cidade de São José dos Campos. Tudo bem, já havia ouvido nos dias anteriores que havia esse risco. Assim, hoje foi o dia da paralisação contra a demissão desses mil e tantos funcionários. Um número absurdo de assalariados ficarão sem emprego, e eu, na minha humilde reflexão, acredito que seja um assunto muito relevante. Mil e tantas famílias sofrerão da angústia e do medo de não terem uma fonte de renda...

♫ Liberdade pra dentro da cabeça ♫
"A tal emissora global
Que eu não gosto nem a pau
Quis mostrar comoção
Mas sequer da demissão mais falou
Voltou sua lente para um assunto importante 
Que enche mais a barriga que mulher gestante
É nosso carnaval 
que dá muito lucro para a emissora Global."

A tal âncora voltou seus olhos para a tela dizendo que ia falar de coisa boa. É isso mesmo, exatamente com essas palavras, começou a falar sobre as escolas de samba da capital.

Alguém vê alguma incoerência, ou é birra minha mesmo?

Nota do autor: qualquer semelhança entre o tema de fundo desse post e sua escrita em prosa e verso com o post "Carnaval" é mera coincidência.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Ecad, a cobrança sobre blogs e a necessidade de uma discussão mais ampla

Olá, caros leitores!

Acredito que todos vocês já devem estar sabendo da empreitada do ECAD nesses últimos dias e agora é hora de nos mobilizarmos para nos opor a essa sandice que vem sendo compactuada inclusive por nossa ministra da cultura, mas rejeitada pela web em peso e também por diversos artistas do cacife do Leoni, por exemplo.

Logo que fiquei sabendo da notícia pensei em escrever sobre o assunto, mas lembrei-me do grande amigo twitterário Felipe Tebet que escreve no blog que leva seu nome e é alguém muito mais gabaritado para abordar o assunto do que eu, por ele ser um exímio conhecedor de música, usuário ativo na internet e possuir conhecimentos profundos sobre legislação.

Não vou prolongar esse prefácio e vou deixá-los com este excelente "guest-post" preparado pelo Felipe.

Boa leitura e disseminem o texto à vontade pela rede, nós não iremos cobrar direitos autorais. Só lembrem-se de citar a fonte e o autor ;)

@alvarodiogo "Apenas compartilhe!"

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O Ecad, a cobrança sobre blogs e a necessidade de uma discussão mais ampla
Por Felipe Tebet*

Assunto de ontem na internet foi o ECAD e a sua iniciativa de cobrar de blogs valores inerentes a direitos autorais por vídeos do YouTube incorporados em suas páginas.

"Quais os interesses por trás do ECAD?" via Bodocongó
A história toda teve início na terça-feira da semana passada, dia 28 de fevereiro, quando o pessoal do blog Caligraffiti recebeu, via e-mail, um aviso do ECAD de que teriam de pagar R$ 352,59 mensais pelo conteúdo dos vídeos postados no blog (leia aqui).

Cientes de que o ECAD tem um acordo com o YouTube e por força deste acordo o YouTube já paga um valor mensal ao órgão arrecadador pela publicação dos vídeos (entendida como execução pública dentro dos parâmetros da Lei 9.610/98, nossa lei de direito autoral), inconformados, os autores do blog questionaram a cobrança, acendendo um debate fervoroso na web. 

ECAD justifica a cobrança no Art. 5º, inciso II da Lei de Direito Autoral e afirma que existem diversas modalidades de utilização das obras e que são independentes entre si “e a autorização para o uso por uma delas não se estende para as demais”, e completa com a pérola: “Isto significa que, se uma rede social como o YouTube, por exemplo, efetua o pagamento do direito autoral pela execução pública musical dos vídeos que veicula, o uso destes por terceiros caracteriza uma nova utilização, cabendo, portanto uma nova autorização/licença e um novo pagamento”.

"Ecad é condenado por cobrar direitos autorais em casamento" via Eco e Antigos

O problema aqui é que, na realidade, não se trata de uma nova utilização. O “embedamento” (ou incorporação) de vídeos em sites não se enquadra em nenhuma das modalidades de execução pública em mídias digitais mencionadas pelo ECAD em sua justificativa:

“Mídias DigitaisStreaming (permite que um conteúdo seja transmitido na rede. As informações transmitidas não são arquivadas na máquina do usuário), Simulcasting (transmissão simultânea de rádio e TV convencionais para dispositivos conectados à rede), Ambientação de sites (sonorização de sites com músicas)”

Obviamente não se trata de Simulcasting e muito menos de Ambientação de Sites. Talvez à primeira vista possa parecer tratar-se de Streaming. Contudo, quem de fato faz o streaming, ou seja, a transmissão, é o próprio YouTube. Quando um usuário, através do blog, clica em “play”, o arquivo roda diretamente dos servidores do YouTube, é ele quem faz a transmissão.

É um conceito muito fácil de se compreender (com um pouco de boa vontade, o que parece faltar ao ECAD). Vídeos ‘embeded’ (incorporados) não podem ser caracterizados como transmissão, pois no próprio código da postagem do blog, se encontra o código da página do YouTube. Tecnicamente, é uma janela para o YouTube, um atalho, e não uma retransmissão. É o conceito técnico de ‘inframe’ (abrir uma página dentro de outra).

Por esta simples razão é que a oportunista cobrança do ECAD é tão absurda e gerou tanta repercussão. Está havendo uma cobrança dobrada. Estão cobrando por algo que já está sendo pago. Isso sem adentrar na questão da ausência da finalidade lucrativa, o que, para o STJ, também seria necessário estar configurada, além da execução pública, para tornar legítima a cobrança, o que não se verifica no caso do blog em comento.

As políticas de arrecadação do ECAD sempre tiveram alguns absurdos pouco questionados por aí. Um exemplo disso é o fato de que todo hotel tem de pagar ao ECAD R$ 21,00 por cada quarto que dispõe de aparelho de rádio, a título de direitos autorais (dados de 2011). A questão é que não há como saber qual estação o hospede ouvia, se escutou somente notícias ou de fato ouviu musicas, e se ouviu, quais músicas tocaram,  ou ainda, se o hospede chegou a ligar o rádio ou não. Para quem vai esse dinheiro arrecadado? Quais artistas têm direito a ele? Entendem?

O mesmo funciona para lojas, bares, restaurantes, consultórios,  com critérios diferentes. Nestes casos, assim como no dos blogs, há uma dupla cobrança pela mesma execução de obra, já que as emissoras de rádio, as que de fato transmitem a programação, já fazem pagamento ao ECAD dos direitos autorais para que possam transmitir. Os hotéis, lojas e consultórios citados como exemplo apenas oferecem um meio para que as pessoas tenham acesso à programação por ela transmitidas.

"ECAD: entenda essa patifaria" via Blog do Vegetal

Trata-se mais uma vez do oportunismo e da sede por dinheiro dos membros do ECAD que, por não sofrer fiscalização nenhuma de qualquer órgão ou entidade, “às vezes atua como batedor de carteira, onde tiver dinheiro vai buscar um pouco mais”, como critica o músico Leoni (ex-baixista do Kid Abelha) em reportagem d’O Globo.

Na realidade, talvez nem fosse tão grande a discussão acerca das (contestáveis) formas de arrecadação de direitos autorais pelo ECAD se houvesse por parte do mesmo uma transparência quanto à política de distribuição desses valores, o que não ocorre. Muitos dos artistas não vêem um centavo do valor arrecadado e muitos outros recebem valores ínfimos, enquanto outros (falsários) recebem vultuosas quantias por obras alheias.

No fim das contas, o grande vilão da história toda acaba sendo o próprio ECAD, que arrecada, mas não distribui. É único que de fato lucra com a criação artística alheia. Então, estamos a proteger os direitos dos artistas ou os interesses do órgão arrecadador?

É claro que os direitos autorais precisam ser protegidos e resguardados, afinal, esse é o ganha-pão das pessoas que trabalham nesse meio, pessoas vivem disso. A questão é que temos uma legislação completamente defasada e obsoleta acerca do assunto diante do contexto de mídias digitais que vivemos hoje, somada a uma ‘indústria cultural’ estagnada num modelo de controle e monopólio da produção e distribuição de mídias que não tem o menor interesse em discutir uma nova forma de arrecadação e distribuição dos direitos autorais através de um legislação decente e novas políticas de proteção dos direitos autorais no ambiente digital.

Ao invés disso, correm na direção contrária, o ECAD e as gravadoras buscam manter o seu engessado modelo que sempre lhe renderam muito dinheiro (e pouca dor de cabeça).

Os tempos mudaram, as formas de produção, divulgação e distribuição das mídias também. As leis, as gravadoras, o ECAD e todo o setor da ‘indústria cultural’ que lucra (ou lucrava) muito com isso não se dispuseram a acompanhar a evolução, e agora estão aí, tentando impedir que ela aconteça.

O que precisamos (e não é de hoje) é intensificar o já amplo debate acerca de uma nova legislação para proteção dos direitos autorais que seja condizente com a realidade do contexto virtual/digital e do modelo de compartilhamento que temos hoje. Não se pode parar ou impedir a internet, e a essência da internet é o compartilhamento.

Não que seja um modelo perfeito, mas a Apple conseguiu, com a iTunes Store, grande sucesso através de um modelo equilibrado e efetivo de venda de músicas online no contexto virtual, cobrando um valor justo e remunerando devidamente os artistas. Hoje a maior loja de música online da web.

Esperamos que essa repercussão toda vá além da questão da legalidade/legitimidade da cobrança do ECAD sobre os blogs que incorporam vídeos em seus posts, mas que de fato sirva para despertar a sociedade para a urgente necessidade de discussão de novas leis no nosso ordenamento jurídico que alcancem situações do contexto digital de forma mais objetiva, não só no campo dos direitos autorais, mas de todas as demais relações no âmbito da sociedade civil (com a discussão também do Marco Civil da Internet)

Links complementares:
Rapper Emicida conta que foi cobrado por improvisações (“...tem que ver isso aí, porque vocês vão usar palavras que já existem...”)


*Felipe Tebet é brasileiro, advogado, apaixonado pela vida e amante da música.

sábado, 18 de junho de 2011

Sou fã. Sou pirata. Sou ladrão?


Pequena nota relâmpago de esclarecimento:

Caros amigos leitores!

O Blog Ideia Nossa está ao relento novamente e novamente os autores estão sem tempo para postar (¬¬ conta uma novidade). Sinto claramente mais uma metamorfose se aproximando, e acho que algumas coisas mudarão por aqui e assim como todos os textos postados aqui ao longo desses 3 anos mudaram a mim, aos autores e muitos leitores, há certas mudanças em nossas vidas que acabam mudando também a cara e o rumo do blog. Mas por enquanto deixo-os na curiosidade e vamos ao que interessa! Post novo! *.*

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Sou fã. Sou pirata. Sou ladrão?
Desabafo de um fã-pirata que não quer ser considerado ladrão por seus ídolos.
Sou fã.

Conheci Tuatha de Danann ainda no ensino médio. Uma amiga tinha o CD Trova di Danú, não gostava muito e acabou me "emprestando por definitivo". Já tinha ouvido alguma coisa na casa de amigos, mas ainda não tinha me inspirado para conhecer a fundo. Inspiração que veio com esse maravilhoso CD caindo nas minhas mãos.

A primeira coisa que fiz quando ouvi e gostei foi baixar a discografia na internet.

A segunda coisa que fiz - depois de já ter decorado todas as letras, viciado e viciado de tabela alguns amigos - foi ir ao show deles na EXPOMUSIC.

E adivinha? Consegui autografar meu CD e ainda fiquei trocando ideias com o Rodrigo e o Giovani, baterista e baixista respectivamente.

Pois bem, sempre curti o som da banda (até hoje tenho uma camisa do "The delirium has just began"), sempre baixei o som da banda e sempre o divulguei para todo mundo e nunca vi nada de errado nisso. Ficava feliz em divulgar uma banda de metal nacional com a qualidade dos caras de Varginha Rock City.

Não gostei quando a banda parecia chegar ao fim com a saída do mentor Bruno Maia, mas fiquei feliz quando saiu seu CD solo e logo tratei de fazer o download para conhecer. E muito bem, me apaixonei pelo som mais folk e menos metal que seu trabalho anterior no Tuatha de Danann.

Sou pirata.

Faço 21 anos este mês e tenho meia dúzia de CDs originais no meu quarto, onde a maioria absoluta deles ganhei de presente. Cresci na transição para as mídias digitais e sei que muita gente da minha idade comprou muitos CDs e compra até hoje, mas infelizmente nunca tive dinheiro para isso.

Toda a minha bagagem cultural deve-se aos downloads que fiz e faço. Ouso ainda afirmar que minha vida inteira seria diferente sem a internet, talvez sem o acesso à ela e sua dinâmica informativa nunca estaria bem informado e quem sabe nem passaria no vestibular.

Talvez daqui alguns anos falarei para minha filha de maneira nostálgica como era a época em que eu fazia downloads no Kazaa, no LimeWire, no Torrent, via Rapidshare e Megaupload, etc., da mesma forma que a geração da minha mãe sente saudades dos tempos do LP. Sim! Tenho certeza que logo, logo o formato digital mudará e se reinventará, eu só não tenho o feeling asimoviano para dar um palpite de como será.

E o que formatos digitais de músicas tem a ver com o Bruno Maia?

Sou ladrão?

Alguns meses atrás um fato ocorrido aqui no blog me deixou muito decepcionado.

Estava na ânsia de reviver o blog (mais uma vez) e os posts do marcador Dicas de Download era uma forma fácil e acessível de manter o blog atualizado. Então resolvi voltar a compartilhar as músicas que me acompanham no fone de ouvido diariamente.

Disponibilizei o álbum solo do Bruno Maia para download aqui e recebemos um comentário de um integrante da banda pedindo cordialmente para retirar o link, pois disponibilizar o CD prejudica a banda.

Bah! Os integrantes do Movimento Música Para Baixar estão se prejudicando? Músicos já consagrados na cena como Leoni, Móveis Coloniais de Acaju e Teatro Mágico entrariam nesse movimento para se prejudicarem? Ou a diferença está simplesmente na maneira de pensar de cada artista?

Retiramos o link para download em respeito a banda e retirei a banda do meu celular em respeito a mim mesmo. Nunca me interesso por nada só pela estética, e uma banda me conquista por inteiro não só com sua música, mas por suas posições ideológicas também.

Depois desse dia nunca mais ouvi o som deles e nunca mais indiquei para nenhum amigo e talvez nem indicarei mais. Quem quiser conhecer que compre o CD, não é mesmo? Aliás, você conhecia Tuatha de Danann e Bruno Maia?

Acho que não.

Eu também nunca conheceria se não fosse a internet.

Segundo Alex, integrante da banda, no próprio site oficial, "com um pouquinho de conhecimento na web é possível baixar o mesmo álbum". Eu não devo possuir conhecimento de web, pois não encontrei. Ficaria muito feliz se alguém da banda postasse o link nos comentários para mais pessoas conhecerem este maravilhoso trabalho.

Não crio esse post para satanizar a banda, nem para criar polêmicas desnecessárias.

Isso é apenas um desabafo e um convite para a discussão sobre direitos autorais e internet. Não me aprofundei nesse aspecto, ficando retido mais aos relatos pessoais, pois no final deste post há uma lista de links com ótimos textos sobre o assunto para quem se interessar e quiser se aprofundar e de quebra ainda fica o documentário "A Nova MPB: Música Para Baixar."


A pergunta que deixo para reflexão é a seguinte: Sou fã. Sou pirata. Sou ladrão?

@alvarodiogo "Compartilhe suas ideias"

Dicas de Leitura via @ftebet:
- Com Ciência: Música no ambiente digital: direitos autorais e novos modelos de negócio e distribuição
- SONIDO: O Fórum Nacional da Música (FNM) lançou um documento defendendo novo sistema de arrecadação e distribuição dos direitos autorais.Direito autoral para a música"
- Movimento Cultura Brasil: Teceria Via para o Direito Autoral
- Revista Trip: O Mistério do E-CAD
- Portal Vermelho: Sérgio Amadeu: Internet não se guia por critérios de mercado
- ECAD: Como receber direito autoral

domingo, 8 de maio de 2011

Criança, entre livros e TV

Criança, entre livros e TV
Pro Frei Betto para o Correio da Cidadania

Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.
Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.
Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de "idade do gênio". Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.
Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intra-uterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.
Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.
A vantagem da leitura sobre a TV é que, frente ao monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado. De certa forma, a TV "rouba" a capacidade onírica dela, como se sonhasse por ela.
A leitura suscita a participação da criança, obedece ao ritmo dela e, sobretudo, fortalece os vínculos afetivos entre o leitor adulto e a criança ouvinte. Quem de nós não guarda afetuosa recordação de avós, pais e babás que nos contavam fantásticas histórias?
Enquanto a família e a escola querem fazer da criança uma cidadã, a TV tende a domesticá-la como consumista. O Instituto Alana, de São Paulo, do qual sou conselheiro, constatou que num período de 10 horas, das 8h às 18h de 1º de outubro de 2010, foram exibidos 1.077 comerciais voltados ao público infantil; média de 60 por hora ou 1 por minuto!
Foram anunciados 390 produtos, dos quais 295 brinquedos, 30 de vestuário, 25 de alimentos e 40 de mercadorias diversas. Média de preço: R$ 160! Ora, a criança é visada pelo mercado como consumista prioritária, seja por não possuir discernimento de valor e qualidade do produto, como também por ser capaz de envolver afetivamente o adulto na aquisição do objeto cobiçado.
Há no Congresso mais de 200 projetos de lei propondo restrições e até proibições de propaganda ao público infantil. Nada avança, pois o lobby do Lobo Mau insiste em não poupar Chapeuzinho Vermelho. E quando se fala em restrição ao uso da criança em anúncios (observe como se multiplica!) logo os atingidos em seus lucros fazem coro: "Censura!"
Concordo com Gabriel Priolli: só há um caminho razoável e democrático a seguir, o da regulação legal, aprovada pelo Legislativo, fiscalizada pelo Executivo e arbitrada pelo Judiciário. E isso nada tem a ver com censura, trata-se de proteger a saúde psíquica de nossas crianças.
O mais importante, contudo, é que pais e responsáveis iniciem a regulação dentro da própria casa. De que adianta reduzir publicidade se as crianças ficam expostas a programas de adultos nocivos à sua formação?
Erotização precoce, ambição consumista, obesidade excessiva e mais tempo frente à TV e ao computador que na escola, nos estudos e em brincadeiras com amigos são sintomas de que seu ou sua querido(a) filho(a) pode se tornar, amanhã, um amargo problema.
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Crianças: a alma do negócio

sábado, 15 de janeiro de 2011

Retrospectiva 2010 - Fevereiro

Fevereiro

O ano começou com muitas polêmicas na pacata cidade de Taboão da Serra.

Muitos leitores podem estar por fora do ocorrido, mas como a maioria do autores do blog residem em TS sabemos muito bem a repercussão que o assunto tomou.

O seguinte post foi emprestado do Allan dos Reis do site "Taboão em Foco" e as imagens descontraídas do "Treta".

O aumento afetou principalmente a parte "nobre" da cidade, enfurecendo m
oradores dos bairros Jd. Maria Rosa, Pazzini, Pq. Monte Alegre, Pq. Laguna e demais bairros próximos.

A prefeitura dizia ser necessário tal ajuste, uma lei de iniciativa popular barrando o aumento foi entregue à câmara que por sua vez negou sua aprovação.

e neste começo de ano todos irão lembrar do fato mais uma vez quando chegar o carnê do IPTU... O que você acha disso tudo?

- Aumento do IPTU - SPTV faz matéria sobre aumento do IPTU. Por Allan dos Reis.

Desde de pequeno vejo nos jornais o eterno confronto entre Palestina e Israel, e mesmo sim nunca entendi direto o que se passava por lá.

Achei um texto e um vídeo muito interessante que na hora resolvi compartilhar aqui no blog.

- Palestina Livre! - A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.

O legado Lula nos deixou várias novidades nunca antes vistas neste país.

Uma delas foi a Conferência Nacional de Comunicação, na qual não tive oportunidade de participar pessoalmente como gostaria, mas acompanhei as discussões pela internet e compartilhei neste post.

- Resultados da COFECOM - “Podemos ter um modelo de inclusão digital inédito, mas isso tudo dependerá de um marco regulatório. Temos a possibilidade de entrada das
teles, que detêm tecnologia, mas precisamos regular, se não os serviços se canibalizam. Por outro lado, simplesmente vetar a entrada dessas empresas é abrir mão da tecnologia”

Destaque do Mês

"Parabéns à você! Nessa data querida..."

Dia 4 de fevereiro é o aniversário deste tão querido blog. E em 2010 ele completou 2 anos com direito a presente especial idealizado por mim e produzido pela @bruhessel. Foram mais de oito tentativas até chegarmos na que está sendo utilizado até hoje no cabeçalho do blog substituindo a versão antiga desenhada pelo Hideo que ainda se encontra abaixo da coluna direita >>>

A Bah também preparou um post-presente para nós: 2 anos de IN! \ô/


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fim de Ano Sem Publicitários

Neste fim de ano, a publicidade invadirá sua privacidade e dirá o que tem que fazer. Ela estará em todo canto, nos postes, nos muros, na net, na televisão, no banheiro do restaurante. Ela te dirá que sua paz, alegria e a comunhão de sua família serão plenas se comprar os produtos oferecidos. Para eles, plásticos que cantam, metais que aceleram, camisas de botão, bolas quadradas, chocolates de limão e vestidos de praia representam a felicidade. Talvez no bolso deles seja verdade. Mas no seu caso…

Seja você neste fim de ano e não deixe que a vontade dos publicitários tome o seu tempo e sobrecarregue seu cartão de crédito. Aproveite, então, para fazer aq
uilo que realmente o faz feliz. Despenda tempo com sua família e amigos, mas não se preocupe com os presentes. Prepara boas piadas, aprenda a cantar uma música, cozinhe uma sobremesa de sorvete com calda de banana. De-lhes amor, atenção, cuidado, humor… Se concentre em rir muito, dar gargalhadas…

Perceba o mundo a dez por hora e sinta o corpo e a mente se desligarem do árduo cotidiano. Vivencie lugares por inteiro. Deixe os sentidos sentirem. Não repita as doses cavalares de ar condicionado e televisão. Pedale, reze, cavalgue, nade, cante, beba, transe, sorria… Ofereça sua atenção a cada coisinha e se surpreenderá com o trabalho noturno das formigas, com o formato das nuvens, com o cheiro da chuva… Perdoe as pombas que habitam seu telhado. Deixe o mundo revelar suas texturas, sons e cores. Deixe o maravilhar com suas faces, sotaques, melodias.

Ah! muito importante. Alivie o Papai Noel, deixe o curtir também, sem trabalhar, sem judiar das renas e sem emitir carbono.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Saramago: tudo é discutível, o que não se discute é a democracia

Já falei aqui como sou fã de Saramago?

Achei este vídeo no Vermelho e creio ser útil gastar 1 minuto e 44 segundos com ele.

Abraços!

Dicas de leitura:

@alvarodiogo "Seja a mídia!"

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Saramago: tudo é discutível, o que não se discute é a democracia

Os recentes fatos ligados a perseguição do site Wikileaks e do blog brasileiro Falha de S.Paulo fazem pensar na declaração do escritor José Saramago: "Tudo se descute nesse mundo, menos uma única coisa não se discute: é a democracia. A democracia está aí como uma referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada e amputada", pois quem tem decidido pelo povo é o sistema financeiro.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica
por Idelber Avelar, no O Biscoito Fino e a Massa

Julian Assange é o primeiro geek caçado globalmente: pela superpotência militar, por seus estados satélite e pelas principais polícias do mundo. É um australiano cuja atividade na internet catupultou-o de volta à vida real com outra cidadania, a de uma espécie de palestino sem passaporte ou entrada em nenhum lugar. Ele não é o primeiro a ser caçado pelo poder por suas atividades na rede, mas é o primeiro a sofrê-lo de um jeito tentacular, planetário e inescapável. Enquanto que os blogueiros censurados do Irã seriam recebidos como heróis nos EUA para o inevitável espetáculo de propaganda, Assange teve todos os seus direitos mais elementares suspensos globalmente, de tal forma que tornou-se o sujeito mundialmente inospedável, o primeiro, salvo engano, a experimentar essa condição só por ter feito algo na internet. Acrescenta mais ironia, note-se, o fato de que ele fez o mais simples que se pode fazer na rede: publicar arquivos .txt, palavras, puro texto, telegramas que ele não obteve, lembremos, de forma ilegal.

Assange é o criminoso sem crime. Ao longo dos dias que antecederam sua entrega à polícia britânica, os aparatos estatal-político-militar-jurídico dos EUA e estados satélite batiam cabeças, procurando algo de que Assange pudesse ser acusado. Se os telegramas foram vazados por outrem, se tudo o que faz o Wikileaks é publicar, se está garantido o sigilo da fonte e se os documentos são de evidente interesse público, a única punição passível, por traição, espionagem ou coisa mais leve que fosse, caberia exclusivamente a quem vazou. O Wikileaks só publica. Ele se apropria do que a digitalização torna possível, a reprodutibilidade infinita dos arquivos, e do que a internet torna possível, a circulação global da hospedagem dessas reproduções. Atuando de forma estritamente legal, ele testa o limite da liberdade de expressão da democracia moderna com a publicação de segredos desconfortáveis para o poder. Nesse teste, os EUA (Departamento de Estado, Justiça, Democratas, Republicanos, grande mídia, senso comum) deixaram claro: não se aplica a Primeira Emenda, liberdade de expressão ou coisa que o valha. Uniram-se todos, como em 2003 contra as “armas de destruição em massa” do Iraque. Foi cerco e caça geral a Assange, implacável.

Wikileaks é um relato de inédita hibridez, para o qual ainda não há gênero. Leva algo de todos: épica, ficção científica, policial, novela bizantina, tragédia, farsa e comédia, pelo menos. Quem vem acompanhando a história saberá da pitada de cada uma dessas formas literárias na sua composição. O que me chama a atenção no relato é que lhe falta a característica essencial de um desses gêneros: é um policial sem crime, uma ficção científica sem tecnologia futura, uma novela bizantina sem peregrinação, comédia sem final feliz, tragédia sem herói de estatura trágica, épica sem batalha, farsa sem a mínima graça. Kafka e Orwell, tão diferentes entre si, talvez sejam os dois melhores modelos literários para entender o Wikileaks.

Como em Kafka, o crime de Assange não é uma entidade com existência positiva, para a qual você possa apontar. Assange é um personagem que vem direto d’O Processo, romance no qual K. será sempre culpado por uma razão das mais simples: seu crime é não lembrar-se de qual foi seu crime. Essa é a fórmula genial que encontra Kafka para instalar a culpa de K. como inescapável: o processo se instala contra a memória.

O Advogado-Geral da União do governo Obama, que aceitou não levar à Justiça um núcleo que planejou ilegalmente bombardeios a populações de milhões, levou à morte centenas de milhares, torturou milhares, esse mesmo Advogado-Geral que topou esquecer-se desses singelos crimes e não processá-los, peregrinava pateticamente nos últimos dias em busca de uma lei, um farrapo de artigo em algum lugar que lhe permitisse processar Julian Assange. O melhor que conseguiram foi um apelo ao Ato de Espionagem de 1917, feito em época de guerra global declarada (coisa em que os EUA, evidentemente, não estão) e já detonado várias vezes—mais ilustremente no caso Watergate—pela Suprema Corte.

À semelhança do 1984 de Orwell, o caso Wikileaks gira em torno da vigilância global mas, como notou Umberto Eco num belo texto, ela foi transformada em rua de mão dupla. O Grande Irmão estatal o vigia, mas um geek com boas conexões nas embaixadas também pode vigiar o Grande Irmão. Essa vigilância em mão dupla é ao mesmo tempo uma demonstração do poder da internet e um lembrete amargo de quais são os seus limites. Assange segue preso, com pedido de fiança negado (embora o relato seja que o Juiz se interessou pela quantidade de gente disposta aLink interceder por ele e vai ouvir apelo) e, salvo segunda ordem, está retido no Reino Unido até o dia 14/12. A acusação que formalmente permitiu a captura é o componente farsesco do caso, numa história que vai de camisinhas furadas em sexo consensual à possíveis contatos das personagens com a CIA.

No campo dos cinco “escolhidos” para repercutir a rede anônima, não resta a menor dúvida: cabeça e tronco acima dos demais está o Guardian, que tem tomado posição, feito jornalismo de verdade, e mantém banco de dados com o texto dos telegramas. Brigando pelo segundo lugar, El país e Spiegel, com o Le Monde seguindo atrás. Acocorado abaixo de todos os demais, rastejante em dignidade e decência, o New York Times, que se acovardou outra vez quando mais era de se esperar jornalismo minimamente íntegro. A área principal da página web do jornal, na noite de 07/12, não incluía uma linha sequer sobre a captura que mobilizou as atenções de ninguém menos que o Departamento de Estado:

Enquanto isso, a entrevista coletiva de Obama acontecia com perguntas sobre o toma-lá-dá-cá das emendas entre Republicanos e Democratas, e silêncio sepulcral sobre o maior escândalo diplomático moderno dos EUA. Nada como a imprensa livre.

A publicação dos telegramas não para, evidentemente, no que é outra originalidade do caso: a não ser que você acredite que a acusação sexual na Suécia foi a razão real pela qual o aparato policial do planeta foi mobilizado para prender Assange, cabe notar que o “crime” que motivou a prisão continuará sendo praticado mesmo com o “criminoso” já capturado. O caso Wikileaks inaugura o crime que continua acontecendo já com o acusado atrás das grades: delito disseminado como entidade anônima e multitudinária na Internet. 100.000 pessoas têm os arquivos do Cablegate, proliferam sites espelho com os telegramas já tornados públicos. E a Intifada está declarada na rede, com convocatórias a ataques contra os sites que boicotaram o Wikileaks.

Atualização: e os EUA estão mesmo tentando com os britânicos e suecos a extradição de Assange para processá-lo por … espionagem!

Atualização II: No Diário Gauche, há um belo vídeo com entrevista de Assange em Oxford, com legendas e tudo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A crise no Rio e o pastiche midiático

O assunto dos últimos dias é a violência no Rio de Janeiro.

Li muitos textos sobre o assunto e o que preparei para compartilhar é este que recebi via e-mail, postado originalmente aqui.

É bem extenso, mas vale a pena a leitura. Para ajudar na digestão deixo também uma música do Rappa para apreciação.



Boa leitura!

@alvarodiogo "Compartilhe suas ideias"
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A crise no Rio e o pastiche midiático
Autor: Luiz Eduardo Soares*

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Emalguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando asdivergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases deum consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética– supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu -, na esperançade que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, meesforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão,exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa seintensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, dasegurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestãopública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamostanto –ou sob tanta pressão – quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convitespara falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas sãocontínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular.Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas oudeclarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria comoresponder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito aoportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia oudesapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação.Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade queconstruí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecerna TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estãosendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno depreconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muitograve e não admite leviandades.
Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficazpara o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Comofazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções delocutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamentoanalítico é editado, truncado, espremido – em uma palavra, banido -, paraque reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, asimagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmentetriunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia:atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo einformativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nosintervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) Oque fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O quea polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?(c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional doRio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e asOlimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudarama legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu,tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de umaperspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessasreportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regrasjornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Poisbem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse códigojornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratadoé complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo deexplicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta asvisões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a sercúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modeloexplicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos aoconhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudançasinadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistadorexigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me doexpediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador dasquestões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafioda insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quandose está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentosconhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, defato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar opaciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal,apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, dedesespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia eassepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, nocorredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nempara formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotarprocedimentos que evitem o agravamento da patologia.
Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar apergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado poroutra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio eno Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como suaintensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que asociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e nãoaceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, amelhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, apostura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se asociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordaro problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional arequerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando,enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longoprazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quaisnão há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção dareconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto aoimediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido,que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos eprolongando-se a vida em risco. A pergunta é obtusa e obscurantista,cúmplice da ignorância e da apatia.

O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, otráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aostraficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia,diante de todos.
Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podresfazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior dotráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios epopulações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos pormeios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) escondeo verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la – isto é,separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia – teria de ser a metamais importante e urgente de qualquer política de segurança digna dessenome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de quesegmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que aindaexiste tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo.Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados ehonestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por saláriosindignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional emcurso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívioinevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade,sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidadeem franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidadeeconômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociaispredominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competircom as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender,exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelodo tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado,antieconômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos,armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros sãopoliciais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todotipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com abanda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com oslíderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre umterritório e uma população, sobretudo na medida em que os jovens maisvulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas.Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens poroutro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticosmais avançados: a venda por *delivery *ou em dinâmica varejista nômade,clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor,mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fossecontrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muitomenos danoso para a sociedade, por óbvio.

O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinadopara isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começarcumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Issoresolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente,de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre daspolícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com focono controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas nabaía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindopistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF nafiscalização das cargas nos aeroportos.

A imagem internacional do Rio foi maculada? Claro. Mais uma vez.

Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas? Sem dúvida. Somosótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espíritocooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar deAquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia adia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento,mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outrosmomentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. Enão porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modeloinsustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs,vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoiopolítico e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, queimplantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com“p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sidoressuscitado, graças à liderança e à competência raras do Ten. Cel. CarballoBlanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minhasaída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença deRicardo Henriques na secretaria estadual de assistência social – um dosmelhores gestores do país -, elas não terão futuro se as polícias não foremprofundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terãode incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ouseja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM.
Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação,dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, noRio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porquesempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico dedrogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão ecomeça, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios – as bandas podresdas polícias – prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamenteambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianasde sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versustráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos epor que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estasdeixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas,crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituiçõespoliciais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados equalificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de serreativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estadodemocrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e asliberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger avida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente àsociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. Adespeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas emprofundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram,adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. Omodelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estadoautoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve àdefesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impedea gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e aavaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas paraidentificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidasonde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas eanárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a PolíciaCivil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados enão-delegados.
E nesse quadro, a PEC 300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores,que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundoemprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino“gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade:para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, asautoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo,deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há gravesproblemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscamsobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mastambém dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam ainsegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo emgrupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias,dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo(pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informale ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não fazsentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio deJaneiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como umdia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro.Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz eincorrigível ou os editores do
JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores comocontumazes e incorrigíveis idiotas. Ou se começa a falar sério e levar asério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos maisdigno furtar-se a fazer coro à farsa.

*Luiz Eduardo Soares é Mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política. Foi secretário nacional de segurança pública (2003) e coordenador de segurança, justiça e cidadania do Estado do RJ(1999/março 2000). Colaborou com o governo municipal de Porto Alegre, demarço a dezembro de 2001, como consultor responsável pela formulação de umapolítica municipal de segurança. De 2007 a 2009, foi secretário municipal devalorização da vida e prevenção da violência de Nova Iguaçu (RJ). Em 2000, foi pesquisador visitante do Vera Institute of Justice de Nova York e daColumbia University. Co-autor de “Elite da Tropa” e “Elite da Tropa 2″,autor de “Meu Casaco de General” e “Espírito Santo”.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Entrevista: Sérgio Amadeu (via Escrivinhador)

Para o terror das vistas cansadas e preguiçosas voltarei a postar textos mais extensos, sem problemas? :p

Hoje deixo para apreciação entrevista retirada do Escrivinhador com o Sérgio Amadeu dividida em duas partes, que ajuda a compreender sobre o Plano Nacional de Banda Larga (Eu Quero Banda Larga!) e também sobre as ameaças que rondam contra a liberdade e a privacidade na web (O AI-5 Digital).

Só deixo registrado meu repúdio pelo projeto de lei do Senador Azeredo que representa o retrocesso conservador que tanto combatemos.

Boa leitura!

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Jogo complexo: a grande mídia não está sozinha
Por Juliana Sada

Há diversas iniciativas na internet hoje, desde criações individuais que se disseminam por todo o mundo até tentativas de grandes empresas de se apropriar deste espaço, passando ainda pelas ações governamentais na área.
Para discutir este amplo panorama, o Escrevinhador conversou com o sociólogo e doutor em ciência política Sergio Amadeu que falou sobre os avanços e ameaças que pairam sobre a rede atualmente. Amadeu é um dos maiores especialistas sobre o tema no Brasil e concilia em seu conhecimento a parte técnica e o debate político acerca da internet.
Nesta primeira parte da entrevista, o ativista do software livre explica o Plano Nacional de Banda Larga e sua importância no cenário de comunicação no Brasil.
Em seguida, publicaremos o debate sobre a neutralidade da rede e como sua vigência é fundamental para que a internet siga sendo um espaço de criação e comunicação.

Você poderia explicar o que é o Plano Nacional de Banda Larga e qual a sua importância?

O Plano Nacional de Banda Larga é um conjunto de ações do governo para levar a internet com velocidade razoável para todo território nacional. Hoje grande parte do nosso território tem acesso apenas à conexão discada. Isto impede que se faça uma série de coisas: acesso à prestação de serviços online, acesso à multimídia…
Portanto o Plano Nacional tenta levar as redes de alta velocidade a todos municípios, a todas periferias das grandes cidades porque as empresas operadoras de telefonia, responsáveis pela banda larga, não fizeram isso até hoje. Nada impedia que essas operadoras levassem banda larga para o nordeste ou mesmo para a Cidade Tiradentes. Há mil restrições em locais onde não é rentável ter banda larga. Aí vem a questão: a banda larga que foi implementada no Brasil é cara e de baixa qualidade, muito instável.
O Plano Nacional de Banda Larga amplia a rede de banda larga fazendo parcerias também com pequenos empreendedores, com empresas estatais e retomando a Telebrás – não como a empresa estatal que era mas como um gestor do sistema. Este será mais amplo em relação ao gerado pelas privatizações, que é um sistema de grande operadoras que querem uma alta taxa de remuneração e por isso deixam abandonadas as regiões carentes.
O Plano Nacional de Banda Larga no fundo é o reconhecimento de que a Anatel não conseguiu que a empresas operadoras, simplesmente por medidas regulatórias, expandissem a banda larga. Até porque a banda larga, ao contrário da telefonia fixa, não tem metas de universalização. Então as operadoras cobram o que querem e não são obrigadas a cobrir todo o território. Já o reconhecimento de que elas não estão dando conta dessa necessidade urgente do nosso país, fez com que o governo retomasse a Telebrás pra criar uma competição justa e importante com essas operadoras. E elas vão ter baixar preço, vão ter que ampliar sua malha.

E que deficiências você vê no projeto do governo?

O que o governo está propondo ainda não é o ideal porque ele está trabalhando com 512k de velocidade, isso é completamente insuficiente. Em relação ao custo, não sabemos ao certo mas deve ser em torno de 15 ou 25 reais, que não é o ideal para a realidade socioeconômica brasileira. Acho que a gente tem que observar que as operadoras fracassaram nesse modelo só do mercado, nada impede ou impedia que colocassem banda larga em todo o lugar então o que o governo está fazendo é uma ação competitiva também que é necessária ao modelo de privatização que houve.
Se você tirar todos os impostos do custo de banda larga hoje, você ainda tem um dos serviços mais caros do mundo. O argumento das operadoras é que são muito tributadas, podem até ser mas não é esse o problema. O problema é que eles tem um modelo de remuneração absurdo, eles querem controlar o tráfego da rede. É uma coisa muito absurda, um dos dirigentes dessas operadoras dizia “olha vocês não podem navegar no horário que vocês querem, vocês tem que navegar no horário que tem menos tráfego”. Ora, eu pago caro e ele ainda quer dizer que horário eu devo usar.
Se deixarem que as forças de mercado atuem livremente nós estamos perdidos, nós não vamos conseguir ter atendidas as necessidades informacionais da sociedade. É básico isso. E por isso que o plano é bem interessante apesar de que espero que ele melhore, que o governo reconheça a necessidade de preços mais baixos e banda mais alta.
A retomada da Telebrás é o ponto do plano que está sendo mais atacado.
Claro, porque as operadoras queriam receber o dinheiro, queriam tirar o imposto e manter praticamente os preços que elas praticam. Ou seja, o governo daria bilhões para elas fazerem no modelo absurdo, de desrespeito ao consumidor que elas vêm praticando.
Então seguindo a lógica de vários outros países extremamente modernos,como a Holanda, o governo montou uma empresa que vai articular a competição. Daí é obvio que as operadoras disseram “não, isso é incorreto”. Incorreto para o modelo de privatização que houve no Brasil que premiou essas empresas sem exigir padrão de qualidade e baixo preço.
A Telebrás será uma empresa de gerenciamento e de articulação. Tem vários pequenos provedores de conexão que ficam sufocados por essas grandes empresas. Com a Telebrás , eles poderão competir com as grandes. Isso é bom. A Telebrás poderá ajudar também as prefeituras que desejarem abrir o sinal, já que hoje as que fazem isso são altamente taxadas pelas operadoras. Então elas sufocam as possibilidades de uso coletivo, de um programa social e de direito humano à comunicação que é dar o sinal de rede gratuitamente.

Das grandes operadoras, quantas são que dominam o mercado nacionalmente?

Elas estão se fundindo, hoje talvez sejam quatro no máximo. É um mercado oligopolizado, ou seja, poucos ofertantes de serviço. Isso é um problema. E eles tem muito dinheiro.
O processo de convergência de digital, ou seja de tudo ir pras redes digitais, gera uma economia de rede mais forte. Ou seja as empresas vão se coligar, é uma tendência mundial. E o capital é concentrador, enquanto houver capitalismo vai ser concentrador. Só uma operadora em São Paulo fatura mais que todo setor de radiodifusão no Brasil, que deve ter faturado 18 bilhões. Só uma operadora fatura mais, ou seja, tem muito mais poder econômico.

Quais obstáculos estão postos para a implementação do Plano Nacional de Banda Larga?

A Dilma ganhando, eu acho que fica tudo bem mas se ela perder, o plano vai ser feito do jeito que as operadoras querem. E para eles é uma briga econômica. Tomara que dê certo mas vai ter que dar porque isso é estratégico. As empresas já estão percebendo isso. Vai ter que ter, não tem jeito.

O que significa a democratização do acesso à internet?

Como as pessoas se beneficiam disto?Eu acho, apesar de ser bastante controverso, que as pessoas ganharam mais poder comunicativo. A internet, por ser uma rede distribuída, dá mais condições das pessoas se comunicarem, muito mais que no período antes da internet. O telefone não permitia que eu mandasse uma informação que pudesse ser vista por milhares de pessoas, hoje você tem pontos na rede que tem capacidade de dialogar com muitas pessoas. Então ela aumentou o poder comunicativo, sem dúvida nenhuma.
Por outro lado, ela reduziu este mesmo poder de grandes grupos. A Globo é muito mais poderosa que um blogueiro, não tem cabimento achar que não. Mas ela começa a enfrentar movimentos e críticas, ela começa a enfrentar ondas na rede. Como foi o #dilmafactsbyfolha . A Folha atua como um partido politico, não só ela mas principalmente. Então ela faz combinações com as campanhas de José Serra e Geraldo Alckmin, ela coloca as manchetes de acordo com a campanha…E ela fez uma manchete completamente descabida e aí gerou um reação. Ninguém sabe exatamente com quem começou mas se você for ver foi de uma pessoa comum indignada e as pessoas acharam legal e começaram a falar, a tirar sarro da Folha. A manchete era “Dilma erra e dá prejuízo de 1 milhão para consumidor” e o pessoal começou a colocar toda a culpa do que acontecia na Dilma. Isso gerou uma desmoralização da Folha de S.Paulo e isso não tende a diminuir. Esta retirada de poder dos grupos é importante. Agora isso quer dizer que vai acabar a empresa jornalistica? Claro que não. Só que essas empresas, se elas forem querer atuar achando que tem o poder que tinha antes, elas vão de dar mal. Elas terão que conviver com a rede. Então acho q isso beneficia mto a nossa sociedade.
A mídia de massas era importante por um lado porque fiscalizava os governos mas quando ela queria atuar de modo classista contra interessantes populares e democráticos, ela atua com a maior tranquilidade. Então hoje você tem um jogo mais complexo. E eu acho isso extremamente positivo, teremos uma diversidade maior de atores. Isso é o que está acontecendo hoje.

Iniciativas tentam por a internet sob controle
por Juliana Sada

Publicamos hoje a continuação da entrevista com o sociólogo Sergio Amadeu. Nesta segunda parte um dos maiores especialistas em internet no Brasil aponta quais são as grandes ameaças à privacidade e liberdade na rede.

Quais são os obstáculos que estão postos e quais iniciativas de cerceamento da liberdade na internet?

Existem governos, como o da China, e grupos de pessoas ou políticos conservadores que querem transformar os protocolos, o controle que é dado tecnicamente na internet em controle político e cultural.
É difícil a gente falar isso: a rede amplia a liberdade de expressão, amplia a capacidade de interação entre as pessoas, ela é uma rede que permite a liberdade nesse sentido. Mas ela é uma rede também de controle. Ela é uma rede cibernética: de comunicação e controle.
Atualmente você pega um grupo como o Google que conseguiu atrair a atenção e interesse das pessoas, que passaram a entregar as suas informações voluntariamente, porque era legal usar o Gmail,o Youtube, o Orkut, as aplicações, o mecanismo de busca…É uma empresa que não obrigou ninguém a passar tanta informação para eles mas eles são um repositório de informações jamais alcançado por alguém história da humanidade.
Nunca tivemos uma situação onde pudéssemos falar tanto e nunca fomos tão controlados. É uma aparente contradição mas não é. A própria rede para ser dispersa, tem que ser extremamente controlada. Mas na hora que eu transformo esse controle tecnológico, que é tipico da cibernética, em controle cultural e começo a dizer que deve passar por determinados lugares, que tem que definir o comportamento político cultural das pessoas. Daí eu tenho algo extremamente grave. Então nós estamos com um grande problema hoje. E uma das grandes expressões desse problema de transformação do controle tecnológico em controle político se dá em torno da neutralidade da rede.

Você pode explicar o conceito de neutralidade da rede?

A internet ela pode ser entendida como uma rede lógica, uma rede de informações. Para usarmos a internet, utilizamos a infraestrutura de telecomunicações, ou seja, os controles do que a gente chama de camada física da rede. Essas operadoras de telecom querem controlar o fluxo de informações que passa por seus cabos.
A internet até hoje não funcionou assim porque uma camada era neutra em relação às outras. Daí o termo neutralidade da rede. Ou seja, até hoje não era permitida a discriminação dos pacotes, seja por origem, destino, conteúdo…
Agora essas operadoras dizem “não, nós estamos com um problema: as pessoas tão baixando vídeo e compete com um tráfego importante de dados. Os vídeos tem que pagar para andar na minha rede”. É como se fossem pedágios virtuais nesse sentido. E elas querem assim: se o blog do Sergio Amadeu não tiver acordo com uma operadora americana, não vão abrir o blog com a mesma velocidade do MSN, que tem um acordo.
Então nos vamos implantar estradas pedagiadas, vamos implantar as regras de mercado dentro do ciberespaço. O ciberespaço sempre permitiu ação do mercado mas ele não é o mercado, ele é o espaço comum, onde todos eram tratados de maneira equânime. E as operadoras com essa tentativa de restrição, estão interferindo diretamente no meu interesse, na minha liberdade de me comunicar.
Isso coloca em risco a criatividade da rede. Se eu criar uma nova aplicação, o que vai acontecer? Uma operadora pode dizer “não sei o que é isso, não vou deixar passar”. O Twitter poderia não existir, o Youtube…Pois todo mundo que quiser criar algo vai ter que ser sócio deles, senão não vai poder caminhar nas redes. Isso é uma aberração.
Defender a neutralidade na rede, é defender a liberdade de expressão, de criação, de invenção. E é uma das coisas mais importantes no mundo da internet hoje.

Que iniciativas existem nesse sentido?

Nos EUA, a Justiça deu ganho de causa à empresa Conquest que alegava poder privilegiar determinados pacotes de informação em detrimento a outros em sua rede. E a FCC, a Anatel deles, está contra essa decisão e tem ações legais no parlamento americano para aprovar projetos que garantam a neutralidade na rede, contra a descriminação dos pacotes.
No Brasil colocamos no Marco Civil da Internet que um dos princípios da internet no Brasil é a neutralidade na rede. Isso colocaria, ao menos no nosso território, uma situação difícil para operadoras que começassem a interferir nos pacotes. É um movimento no qual a gente tenta aprovar leis em todos os países importantes do mundo pra garantir a neutralidade da rede.
Porque isso não depende de cada país já que o acesso não tem fronteiras, certo?
Essa questão é bem interessante. O que a gente quer fazer em cada país é garantir que a internet continue livre e não fazer uma lei para dizer “meu país é diferente”. Então é um espírito de uma parte da opinião pública mundial que luta por isso. Olha que interessante: a internet é transnacional mas se os EUA aplicarem o processo de quebrar a neutralidade, eles vão impor essa lógica no mundo inteiro pois é la que estão os maiores provedores de conteúdo e as principais redes sociais.
Então, na verdade, temos que lutar com leis contra o poder de oligopólio desse controladores das redes físicas. A rede física é que controla os cabos, satélites, cabos submarinos…Esses caras são oligopólios no mundo, é mais fácil a gente convencer o governo americano a fazer algo do que a convencermos uma operadora dessa. Porque eu não posso eleger-los, eu não posso controlar-los. Eles não se guiam por preceitos democráticos, é a ditadura do capital. Então é muito grave, daí estranhamente para defender a liberdade transnacional, a gente recorre às leis nacionais. Dizendo “neste pedaço da terra, o fluxo é livre, naquele também, naquele também” e se esses países forem os mais importantes, a gente venceu a batalha.
E qual o interesse das operadoras em fazer isso? Tem a ver com o interesse da indústria fonográfica em barrar o download de músicas, por exemplo?
O interesse maior é eles ganharem mais dinheiro, é cobrar. E aí tem a indústria do copyright, que pensa “bom, se eles puderem controlar a rede, eu faço um acordo com eles pra não passar protocolo bitorrent pela rede deles e aí eu acabo com a pirataria”. É ilusão dos caras isso. Mas o principal interesse das operadores é aumentar seu controle, eles pegam o controle técnico que tem – os computadores sabem que pacotes estão passando – e aí eles ganham mais dinheiro.
E para ganhar mais dinheiro eles destroem a liberdade de expressão, de criação. Eles passam a ter um controle grande porque se eu inventar a Web 3D, vou ter fazer um acordo com ele porque senão eles podem barrar meu conteúdo. Vamos ter cercas digitais e eles só abrem a porteira mediante pagamento ou acordo. Isso é um controle gigantesco sobre a criatividade.
No mundo, as operadoras estão se concentrando – vão ser de 10 a 12 grandes operadoras, que tem mais poder que Estados. E é um poder sobre a comunicação e então a gente tem que superar essa nossa dependência desse tipo de companhia – não sei ainda qual seria a solução mas a situação atual é grave. Essas empresas são estratégicas do ponto de vista do direito a comunicação hoje e elas tem que ter o controle social.

Quem são as grandes empresas de telecom?
Quem são esses grupos que controlam o mercado?Tem algumas empresas grandes dos EUA, a AT&T, Conquest, Verizon…Alguns grupos europeus como a Telefônica, a Vodafone e algumas alemãs. Tem duas grande chinesas, muito grandes. Mas o que está acontecendo é que essas empresas estão se coligando, então o grande perigo é essa enorme concentração. É um setor estratégico, eles tem toda a infra-estrutura da rede. Por exemplo, como é que a China faz: eles não deixam que alguns IPs sejam lidos o fluxo de alta velocidade vem e ao entrar na China, tem um computador que filtra. É o chamado grande firewall chinês, a grande barreira.
É possível haver uma regulação a nível mundial?
Alguma instância de decisão?Não, acima dos Estados Nacionais tem acordos. Seria uma boa ideia a gente tentar fazer um acordo em defesa da liberdade na internet mas é muito difícil. No momento nós temos que ganhar a opinião pública em cada país. Porque aí as sociedades em cada local brigam. Na Espanha tem uma briga forte em defesa da neutralidade da rede. Na França infelizmente a gente perdeu para o Sarkozy, que criou lei absurdas. Mas a gente tem um movimento mundial.

Você pode explicar sobre a lei aprovada na França e que foi debatida no parlamento de vários países europeus?
A grande iniciativa hoje é chamada “three strikes”, são as três batidas. Eles identificam que você está baixando, por exemplo, um arquivo de música. Então ele violam a sua privacidade para ver que tipo de arquivo você está baixando. Se for um arquivo protegido pelo copyright, ou melhor dizendo cerceado pelo copyright, eles te mandam um aviso “você está violando a lei” – é a primeira batida. Se você continuar, eles te mandam um segundo aviso e na terceira vez eles cortam a sua conexão, em geral por um ano.
Qual o problema disso? Pense na minha casa que tem três pessoas usando a internet, só eu baixei a música. Na hora que me desconectam, são prejudicadas outras pessoas que não tem nada a ver com isso. Quer dizer, é uma lei inexequível. Tanto é que na França ela foi aprovada há mais de um ano mas não foi aplicada.
A grande questão em relação ao IP [Internet Protocol, número de identificação de um computador na rede] é a seguinte: para você navegar na internet você tem que ter um número de IP, então é muito fácil identificar o IP, a máquina e a região em que está. O grande problema é você individualizar o IP, ou seja, vincular um IP a uma identidade civil. Daí toda aquela navegação, tudo o que aquele IP fez pode ser rastreado por outros e não só autoridades. Basta que eu sabia que o IP x é do Sergio Amadeu. Eu acabo seguindo o rastro digital. Então é uma coisa bem complicada do ponto de vista da privacidade.
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