Coletivo Ideia Nossa: Grupo para estudo, discussão e proposição de ideias sobre política, economia, ambiente e sociedade, além de ser também um canal de mídia alternativa e intercâmbio cultural. Participe, compartilhe suas ideias!
Texto: Gabriel Di Pierro / Fotos: Álvaro Diogo, Luiz de Campos e Rodrigo Martins
Quinta-feira (29/09) colocamos mais uma ghost bike na cidade, Rua Ari Aps, beira da Raposo. Foi só o começo da jornada. A manifestação voltou à sub do Butantã, onde encontramos o Subprefeito Luis Felippe, que garantiu que o projeto da ciclovia da Eliseu chegou ontem na CET para aprovação ( nada como um protesto agendado).
Na frente da sub, o tradicional 'piti' de motorista que saiu do carro para arranjar briga reclamando da via "fechada" e conseguiu brigar com a GCM e depois com o próprio subprefeito, que pediam calma ao distinto senhor. A manifestação preferiu deixá-lo obstruir o trânsito sozinho e foi-se em direção ao Taboão.
Passamos pela antiga ciclovia desativada no começo de 2013 pelo atual prefeito daquela cidade, Fernando Fernandes Filho (PSDB), em desrespeito à lei n° 132/2006 do Plano Diretor vigente. O dinheiro investido era do Ministério das Cidades, veio do governo federal. Antes de chegar na Prefeitura já éramos acompanhados de cerca de 5 viaturas da PM. Apesar de termos enviado o convite da manifestação à equipe do governo e de ser 19:30h apenas, não havia ninguém ali trabalhando, segundo os seguranças com quem fomos obrigados a protocolar nosso manifesto.
Assim, decidimos ir em frente à casa do prefeito, onde no primeiro semestre uma mesma manifestação havia sido barrada e ameaçada pessoalmente pelo co-cunhado do prefeito, por acaso secretário de segurança (não se assuste, nepotismo ainda mais claro é o filho do prefeito ser secretário de esportes).
Dessa vez a recepção foi mais calorosa: além de GCMs de escopeta estava também a mesma PM na entrada da rua impedindo o nosso direito de se manifestar pacificamente. A tensão cresceu e deu pra sentir a agressividade geral dos agentes de segurança, ameaçando a todo tempo os ciclistas. Apesar disso apresentamos ao comandante da PM, o único que buscou o diálogo, a proposta de ir uma pessoa rua acima para trazer uma carta assinada pelo prefeito com o compromisso de uma audiência em menos de trinta dias. Mas o secretário de segurança recusou a proposta, mesmo que o comandante a tivesse aceito. Voltamos a pressionar pela passagem e passamos o primeiro bloqueio para ficar de frente com a GCM enfileirada.
Constatamos então que os agentes municipais, assim como vários PMs, estavam sem identificação. O secretário era um tosco truculento e ignorante, a ponto de conversar comigo e, disfarçadamente apertar um spray de gás de pimenta, achando que eu não perceberia. Ele foi intransigente e não apresentou nenhuma proposta. Fizemos muitos videos, depois de cerca de uma hora fomos embora. Soubemos então que a esposa do prefeito, deputada estadual, Analice Fernandes, ligou pessoalmente ao secretário de segurança do Estado encomendando proteção, como informou um agente da Força Tática. No fim os manifestantes se reuniram, combinando incomodar mais ainda o Sr. Prefeito e voltamos para casa com dever cumprido.
Desde cedo o paulistano aprende a ser guerreiro. Começa tomando ônibus com a mãe, enquanto criança, a espera dum lugar pra sentar, pela falta de cidadania de alguns. Ali já é possível vislumbrar o que o futuro o aguarda. Dessa maneira, cria-se o sonho do carro próprio e tão logo se vê preso no caótico congestionamento que a cidade tem todos os dias.
Carrocracia
Portanto, merecia honras, medalhas e uma boa gratificação por todos os dias passar em média 4h pra se deslocar de casa ao trabalho e do trabalho pra casa. (Fonte: infomoney.com.br). Sem contar mais as 8h que passa trabalhando (para ganhar quantias, por vezes irrisórias, que provém seu sustento).
E não esquecemos dos estudantes que após essas 12h ainda enfrenta mais um turno de 4,5 ou 6h em suas escolas, cursos ou faculdades.
O capitalismo exacerbado deixou as pessoas à “flor da pele”, os nervos estão sempre exaltados, pesquisas apontam que os jovens de hoje tendem a morrer, em sua grande maioria, por enfarto, tanto pela alimentação, quanto pelo estresse do dia-a-dia. E o tempo gasto se locomovendo pela cidade pode ser considerado preponderante.
Você acha mesmo que são só 20 centavos?
A briga não é por causa dos 20 centavos, como muitos vomitam por aí. Esse foi o estopim.
O paulistano acordou e foi para as ruas por um transporte de qualidade. Visando a melhora da qualidade de vida.
Cobrar o descaso com as linhas de ônibus que não tiveram nenhuma melhora em anos.
Saber o que se faz com os mais de 700 milhões (Fonte: vejasp.abril.com.br) arrecadados e destinados às empresas que gerenciam os ônibus das linhas “públicas”. (Sem falar na linha 4-amarela do metrô que tem a política pública e privada - PPP).
Entender a relação dos impostos que são pagos pro mesmo lugar de onde saem a verba. Ou seja, o dinheiro circula no mesmo lugar e nada acontece.
A cidade é nossa!
Compreender o motivo pelo qual a prefeitura ora “tira o dela da reta”, culpando o Estado (que vê os manifestantes como baderneiros e acusa de anarquia seus atos, sem ao menos saber que o real conceito de anarquia está longe de ser a desordem), ora se diz complacente com a população e que vai buscar respaldo com a presidentE Dilma.
Divulgar o que a mídia não mostra. Mostrar o outro lado da moeda. Pra que todos vejam que a Ditadura continua e ela Errou!
A verdade é que o paulistano cansou de se calar e está sendo reprimido por isso.
Tem medo de estar sendo massa de manobra como os seres de inteligência obtusa dizem?
Investigue, leia, entenda, pergunte, esclareça, divulgue e VENHA À LUTA!
Vale do Anhangabaú na noite do protesto do dia 06 de junho. FONTE: Carta Capital
Países árabes unidos. FONTE: Internacionalistas.
Os brilhantes e recentes protestos pelo mundo chamaram a atenção da mídia brasileira como um exemplo de cidadania e organização. A opinião pública sempre foi favorável a grandes protestos como a Primavera Árabe e Ocupem o “Wall Street”.
A organização de estudantes paulistas indignados com o aumento da passagem de ônibus e metrô reuniu em um grande protesto na avenida paulista cerca de 2.000 pessoas. O ato que representou muitas pessoas que não concordam com o aumento, questionando o direcionamento do dinheiro, uma vez que o salário dos trabalhadores dos transportes coletivos não aumentaram e a qualidade do transporte também não. Então o que justificaria esse aumento?
Wall Street é nossa rua. FONTE: Guardian
Protesto é a forma de um povo se organizar e mostrar aos governantes que não estão de acordo com uma ação. Porém, os governantes tem seus “cães” protetores, que por sua vez usam o direito legal, atirar balas de borracha, bombas, cassetetes e prisões consideradas em bem da ordem pública.
Os jornais por sua vez não perderam o seu “estilo copie e cole” e influenciando a grande massa, forçando a opinião pública a usarem argumentos do tipo: “eu apoio, desde que não quebrem, não fechem a rua e não vire uma guerra” ou “eu apoio, mas na avenida paulista tem muitas empresas, lá não pode” e tem ainda aqueles que vociferam: “cambada de gente sem ter o que fazer, vai trabalhar e para de atrapalhar o trânsito”.
O corrupto nos teme. O honesto nos suporta. O heroico une-se à nós. FONTE: The Oldspeak Journal
A primavera Árabe, Occupy Wall Street e tantos outros movimentos de indignados pelo mundo custaram vidas e mesmo assim foram motivo de mérito para muitos.
Vândalos às ruas ou exemplo de manifestação? FONTE: Jorwiki
Até quando acharemos que a grama do vizinho é mais verde que a nossa? Até quando seremos pacíficos ao ponto de achar que nosso povo é vândalo ao sair às ruas para lutar por um bem comum. Até quando seremos ativistas virtuais? Até quando aceitaremos ações políticas que prejudiquem a sociedade?
Quer saber? “Eu vou a luta com a rapaziada, que segue em frente e segura o rojão, eu boto fé e na fé da moçada”.
"Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor." (Desmond Tutu)
Cartaz no segundo dia de protestos. FONTE: Brasil de Fato
Como vão caros leitores do Ideia Nossa? Preparados para mais um daqueles meus posts de leitura interminável? :]
Como todos sabem o Coletivo é plural e um dos nossos objetivos é estar presente cada vez em mais lugares, mesmo que apenas com alcance virtual.
Mas como o Blog foi "fundado" em Taboão da Serra e todos os membros possuem ligação direta ou indireta com a cidade já deu pra perceber que ela torna-se pauta dos posts constantemente.
Ano passado um movimento denominado "Salve o Parque das Hortênsias" conseguiu causar certo impacto na cidade, gerando uma petição que poderá ser acessada logo abaixo e virando manchete nos jornais locais.
Divulgação do movimento que percorre as redes sociais
O tema abordado pelo grupo já foi debatido em nossas reuniões e colocado em nossos planejamentos, mas nunca deixou o plano das ideias de fato. São poucas as pessoas que tentam superar a ignorância e a inércia, mas felizmente elas existem!
Resolvi abordar um tema com um certo atraso, mas ainda está em tempo de entrar na discussão.
O blog do grupo tem poucas atualizações, mas é interessante acessar para ter ideia do que está acontecendo no parque.
A movimentação nas redes sociais com direito a pressão com petição on-line e na portaria do parque gerou repercussão na mídia e fez alguns dos pré-candidatos à prefeito desse ano opinarem sobre a situação.
Defenderam a permanência do zoológico e revitalização da área, defenderam a criação de um polo cultural e até a ideia absurda de se criar um parque aquático O.o" Sim, em plena área de preservação ambiental!
Eu nem vou comentar sobre a criação de um parque aquático, pois pelos poucos conhecimentos que tenho sobre legislação ambiental, derrubar árvores nativas de uma APA ou APP para colocar em seu lugar piscinas artificiais não me parece legal.
A criação de um polo cultural na cidade é muito bem vinda, mas acredito que seria muito mais aproveitada se fosse locada no Pirajuçara, por exemplo, já que no centro já temos o Liceu de Artes, CEMUR, Praça Nicola Vivilechio e o próprio parque.
Eu concordo plenamente que o parque precisa de uma revitalização, mas sou contra a permanência do zoológico e eu como leigo no assunto não defenderei essa teoria com minhas palavras e preparei um texto extraído do Instituto Nina Rosa que diz tudo que eu planejava dizer e muito mais. Ele foi levemente alterado, com alguns grifos meus e imagens adicionadas para ilustrar, mas o original pode ser acessado no final do texto.
Sei que é uma luta difícil, mas inevitável. Já ouvi de importantes nomes da cidade que o zoológico foi uma conquista do povo e que não pode ser deixado de lado tão facilmente e eu retruco dizendo que se o povo décadas atrás queria um zoológico hoje pode muito bem não querê-lo mais e é o que está parecendo.
O que acho mais engraçado é ouvir de pessoas que trabalham dentro do parque comentários especistas como: "você não pode falar que os animais estão sendo maltratados ou que não tem espaço ou que não se sentem felizes, isso é 'humanizar' os animais e nós estamos tomando todos os cuidados que eles merecem."
Não é questão de humanizar animal nenhum, aliás, tem muito "animal irracional" muito mais humano que muita gente. É só questão de se colocar no lugar do próximo. Imagine-se um leão vivendo a vida toda em uma jaula de 30m². Difícil imaginar? Então pense em você, vulgo "humano sábio", vivendo a vida inteira em uma jaula de 30m² servindo apenas para entretenimento alheio? É legal? Está sendo bem tratado, bem alimentado, foi criado em cativeiro, não precisa de espaço mesmo, não é? Que tal?!
Bom, não vou entrar no mérito da discussão, pois o texto abaixo o fará muito bem por mim.
O que nós queremos para o parque?
Resolvi criar esse post principalmente para enriquecer a discussão, pois tem muita gente entrando na onda de reclamar do parque, mas não percebem o grande problema que não está no parque e sim no zoológico.
Eu espero que esse título do post traga muitos leitores direcionados pelo google quando procurarem mais sobre esse movimento que continua se expandindo e quero a deixar minha posição a respeito e acredito que é a mesma posição do coletivo como um todo:
A área por ser uma das poucas áreas remanescentes da mata atlântica poderia ser muito bem aproveitada como um Centro de Educação Ambiental, trabalhando de maneira similar ao CEA da Sociedade Ecológica Amigos do Embu que existe na Fonte dos Jesuítas no Embu das Artes ou mesmo como a UMAPAZ no Ibirapuera.
Acho que essa devia ser a ideia central para a área, já que essa é uma atividade que engatinha na cidade e região e que ainda ajudaria a preservar não só essa área mas os outros fragmentos espalhados na cidade como o Pq. Laguna.
Mas trata-se de uma área grande e sabemos que é difícil reverter verbas para o meio ambiente, me parece que isso não gera muitos votos (sic!).
Pois bem, a área abrigaria muito bem um centro de educação como esse, compartilhando espaço, quem sabe, com um Centro de Educação de Trânsito, ou com o pessoal da Saúde Mental (como já ocorre nos dias de hoje), ou quem sabe ainda abrigar um palco para shows ao ar livre (quem sabe abrigar o retorno do Cultura Rock Taboão), ou mais outras atividades provenientes de X pastas diferentes.
Ideias pipocam aqui e ali na cidade a todo tempo! Resta nossos governantes aprenderem a ouvir aqueles que representam e começarem a se movimentar com vontade. Sair da inércia e da ignorância.
E encerro esse texto embalado ao ritmo dos Panteras Negras: "Power to the People!" E vamos salvar o Parque das Hortênsias!
PASSEIO AO ZOOLÓGICO: SOB OUTRA ÓTICA, SOB OUTRA ÉTICA ,
por Marcela Teixeira Godoy*
“quando se trata de como os humanos exploram os animais, o reconhecimento de seus direitos requer abolição, não reforma (...) a verdade dos direitos animais requer jaulas vazias, não mais espaçosas”.
(Tom Regan, em Jaulas Vazias)
Como Bióloga e Educadora, sempre acreditei nos Zoológicos como ferramenta deseducativa. Meu repúdio a esse tipo de atividade, fez com que eu me afastasse, durante anos, de uma visita a esses verdadeiros redutos de infelicidade animal. Tive a oportunidade de fazer uma visita técnica a alguns desses redutos recentemente (a menos de uma semana, para ser mais exata). Assim como a aquários, oceanários, serpentários e afins. Foi um tour dos horrores, considerando toda minha aversão a qualquer forma de confinamento animal para a satisfação de egos humanos. Mas, com o passar do tempo, minha aversão que antes era representada pela negação, foi substituída pela coragem de encarar os fatos como eles são: os animais sofrem. Ao nosso lado. Todos os dias. E nos fazem a todo o tempo, um apelo silencioso. Não é possível ignorar essa realidade pelos melindres de não querer sofrer, de não querer olhar. O sofrimento deles é infinitamente maior. Nessa visita técnica, foram incluídos locais que os visitantes “comuns” não tem acesso, como cozinhas, biotérios, áreas de cuidados veterinários e etc. Fui convidada por uma colega de trabalho, a conduzir com ela (que também não é fã de Zoológicos), a visita (sou professora universitária) e temos uma turma em comum, a qual nos acompanhou. A curiosidade de saber a quantas anda a exploração legitimada dos animais que tiveram sua liberdade seqüestrada, na prática, foi um dos fatores que me levou a decidir ir. Outro fator importante foi a certeza de ter minhas concepções biocêntricas renovadas. Mesmo à custa do meu sofrimento. Banal, como já mencionei, perto do sofrimento de inúmeros animais que lá encontrei. Antes de “ver” os animais e durante as “visitas”, em todos os locais, há uma explanação teórica/logística por parte dos monitores. Parece que são treinados todos no mesmo lugar, pois as frases feitas a respeito do bem-estarismo animal são quase que idênticas. Tais explanações me remetiam inevitavelmente ao “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago. Pensava: as pessoas estão mesmo acreditando nisso? (Acho que vou escrever um “Ensaio sobre a surdez”). Outro pensamento recorrente: na ocasião de uma palestra do Seminário da Agenda 21, no Paraná, em 2009, a filósofa Sônia Felipe mencionou a seguinte frase: “BICHO NÃO É VITRINE DE SHOPPING”. Considerei extremamente relevante. Me fez pensar além.
Zoológicos com objetivos de recuperação e reintrodução de espécies no meio, sem exposição ao público, que respeitam o que o animal nasceu, de fato, para ser, merecem nosso reconhecimento. Não são, infelizmente a maioria deles. A maioria ainda se baseia em concepções especistas e antropocêntricas para justificar sua existência e conseqüente sofrimento animal. Algumas falácias são facilmente identificadas no discurso daqueles que defendem o Zoológico “vitrine” como “ferramenta educativa”. Aliás, podemos, sim, fazer dos Zoológicos, ferramentas extremamente educativas se mudarmos a análise e a perspectiva. Analisando sob a ótica da Ética Biocêntrica, podemos enumerar algumas falácias que são repetidas como mantras a respeito dos animais confinados. Vamos a algumas delas:
- “o Zoológico é importante porque nós devemos conhecer as espécies para preservar/respeitar”.
Essa concepção traz embutida a desculpa de que só é possível preservar uma espécie a partir do momento que a conhecemos. Se a concepção biocêntrica predomina, o simples fato de o animal existir, já é um pressuposto que justificaria o respeito por ele. E só. Eu não conheço nenhum africano, por exemplo, mas não preciso o fazer para só depois respeitá-lo. Nunca conheci um urso polar, um tigre de bengala, uma perereca amazônica ou uma orca. Mas o fato de não vê-los ao vivo, não me impede de respeitá-los pela sua essência.
- “O Zoológico é imprescindível para estudarmos o comportamento dos animais”.
Só se for para estudar neuroses de cativeiro. Qualquer pessoa com noções básicas de Biologia sabe que o comportamento de animais em cativeiro não é o mesmo que o animal apresentaria no seu meio natural. Tenho muito respeito por estudos comportamentais. Mas por aqueles que são feitos no habitat natural do animal. Esse argumento não sustenta a existência desse tipo de Zoológico.
- “O Zoológico é importante para a reprodução e para salvar as espécies”.
Primeiro: a maioria dos animais reproduzidos em cativeiro é reproduzida para esse fim: permanecer em cativeiro. Não para ter devolvido o que lhe foi negado desde as gerações anteriores: sua liberdade. Há, entre os Zoológicos, uma espécie de escambo de espécies, onde os animais são intercambiados. Faltou uma girafa no Zoológico “x”? Já está nascendo uma no Zoológico “y”. Será separada de sua mãe e destinada ao Zoológico “x” como animal de exposição. Segundo: Privado da convivência com seus iguais e de todas as interações que lhe são possíveis em seu meio natural, ele não é mais do que a sombra dos seus ancestrais.
- “Mas os animais que nasceram no Zoo não sofrem porque não conhecem outra vida”.
Será que o fato desse animal ter nascido em cativeiro nos dá o direito de usurpar sua liberdade mais uma vez e condená-lo a uma vida miserável, privando-o da sua verdadeira liberdade?
Se houver uma “visita ao zoológico”, com propósitos educativos, que sejam feitas pelo menos, as seguintes perguntas e investigações com os alunos: qual o habitat natural desses animais? Quais os hábitos desses animais em seu meio natural? Geralmente são: Nadar, correr, voar quilômetros por dia, procurar comida, defender seu território, interagir com outras espécies e com seus iguais. E em cativeiro? Quais as mudanças percebidas? Quais os impactos nefastos nos seus hábitos? Quais as conseqüências? Um pequeníssimo exemplo, entre tantos que presenciei: um leão marinho em seu habitat natural viaja centenas de quilômetros por dia. Em cativeiro, é condenado a viver em um pequeno tanque, onde passa o dia circunscrevendo voltas como que para escapar da escravidão sem fim. Sem falar na obesidade e outros transtornos de comportamento como as já mencionadas neuroses de cativeiro. Isso nos reporta à falácia seguinte:
- “Aqui no Zoológico, fazemos o enriquecimento ambiental”,
Esse novo modismo nos Zoos (proveniente de um modelo americano) traz em sua proposta, a introdução de diferentes estímulos no cativeiro para que animais não desenvolvam comportamentos repetitivos e neuróticos como automutilação, coprofagia e etc. Certamente, estímulos são melhores que a estagnação a que esses animais são condenados. Mas deve-se sempre questionar: a reabilitação e a devolução da liberdade que lhes foi negada, não seria infinitamente melhor? O tão prestigiado enriquecimento ambiental não seria mais um engodo para justificar a perpetuação do cativeiro e de interesses escusos?
- “Hoje não existem mais jaulas nos zoológicos”.
Ouvi diversas vezes essa frase dos monitores que nos acompanharam. Em vários lugares. Basta uma breve visita para, novamente, a perplexidade ao comparar o dito e o constatado ser inevitável. O ápice do menosprezo à inteligência dos presentes. Percebe-se, claramente a existência de cercados mínimos de aço, alumínio, terrários, aquários, e paredes de vidro fazendo as vezes de jaulas. Mas pergunto: não seria infinitamente melhor que jaulas, aquários, terrários e afins estejam para sempre, vazios?
- “A alimentação é balanceada”.
Isso pode soar muito bem aos ouvidos antropo e ecocêntricos. Mas nos ouvidos biocêntricos e abolicionistas dói. Até fisicamente. Uma frase que ouvi da monitora: “Os zootecnistas que trabalham no zoo e cuidam da alimentação dos animais, acham que os psitacídeos silvestres são uns chatos porque são muito exigentes, não comem qualquer coisa”. Ora, o que diriam os psitacídeos se falassem? “Chato” seria um adjetivo no mínimo elegante para qualificar quem os trancafia em um viveiro, obrigando-os a uma “loteria gastronômica”, forçada e diferente de sua alimentação natural.
E nem tecerei aqui, comentários a respeito do estresse gerado para o animal decorrente das barulhentas “visitas”. É desnecessário.
Os animais em zoológicos são a ponta do Iceberg dessa empresa. Por trás há inúmeros fatores que formam uma cadeia de horrores para outras espécies também. Uma delas é a existência de biotérios, terceirizados ou dentro dos próprios Zôos, que são lugares específicos onde são criados animais vivos para alimentar os animais cativos. No Brasil são criados, para esse fim, ratos, porquinhos da índia, gansos, pintinhos e etc. Esses seres vivos, considerados “alimento” no contexto, são manipulados, criados e administrados com a naturalidade de quem dá uma banana a um macaco. São “coisas” como regem os preceitos do antropocentrismo e do especismo. Os ecocentricos dirão que é muito boa essa preocupação com a alimentação dos animais. E que não há dilemas morais, pois na natureza existe a relação predador/presa. Sim. NA NATUREZA. Mas, novamente a pergunta que se deve fazer é: Não existir animais enjaulados não seria infinitamente melhor?
Outro fenômeno que ocorre na maioria dos Zoológicos e confesso, para mim é novidade: a distinção entre “animais em exposição” e “animais excedentes”. Os animais em exposição (no contexto, como se fossem agora, peças de uma galeria de arte) são aqueles que o público enxerga. Aliás, a maioria deles é recolhida à noite, gerando mais estresse. Os “animais em exposição” ficam nas partes divulgáveis do Zoo. Nas áreas que estão longe dos olhos do público, existem pequenas jaulas com os “animais excedentes”, ou seja, os que sobraram da reprodução em cativeiro, ou de trocas com outros Zoológicos. Ou até mesmo os animais doentes ou que desenvolveram a (novamente ela) neurose de cativeiro. Claro que não é conveniente que o público tenha contato com comportamentos como automutilações, coprofagia, canibalismo e outros desenvolvidos em animais privados de sua liberdade. A visão desses comportamentos pode começar a atenuar a “cegueira conveniente” do grande público. Não é recomendável. Nessas áreas, até são permitidas visitas técnicas. Mas são terminantemente proibidas fotos e filmagens, por razões óbvias aos olhos da Ética Biocêntrica. Uma das monitoras, quando questionada sobre o porquê das fotos serem proibidas, disse não saber. Fiquei me questionando se a resposta foi estratégica, se foi repetida como mantra, se ela simplesmente não se importa, ou se a cegueira a acomete também. Nas áreas dos “animais excedentes”, foi possível observar em vários zoológicos que o espaço em que os animais estão confinados é bem menor que o dos animais “em exposição”. Logo nos perguntamos: o que dizer da preocupação com o “bem estar animal”, ou com “enriquecimento ambiental” para os animais dessas áreas? Também não obtive respostas convincentes. Só evasivas. Não insisti mais porque as respostas ficaram óbvias demais.
Na esteira dos Zoológicos, seguem aquários, serpentários, oceanários, circos, projetos de “preservação” e etc. que, pela tradição antropocêntrica possuem um propósito educativo “inquestionável”. Mas basta um breve passeio, com esse olhar biocêntrico, diferente do que nos foi imposto a acreditar a vida toda, para que o apelo silencioso e profundo de cada animal se faça presente e toque fundo nossa alma toda vez que visitarmos um Zoológico ou algo semelhante. Essas mudanças de perspectiva, segundo Arthur Conan Doyle, equivalem a uma conversão religiosa: nada mais será visto da mesma maneira que era antes.
Mesmo com todas essas “justificativas”, que sob minha perspectiva, não passam de falácias, ainda acredito que o “simples” fato de um animal ter sua liberdade restringida, impedida, seqüestrada para a concepção medieval de satisfazer as curiosidades e prazeres humanos, é a base do meu repúdio a esse tipo de exploração, sem mais considerações.
Mas a esperança se renovou quando vi a reação da maioria dos meus alunos, acadêmicos de Licenciatura em Ciências Biológicas, durante a visita. Quando ouvi, em cada comentário a indignação, a revolta e a preocupação de fazer uma abordagem ambiental realmente crítica na escola. Quando vi em cada rosto a angústia pelos animais e a cegueira se dissipando, pensei: é um trabalho que vale a pena. Pois não deixo de mencionar em minhas aulas a importância de se olhar o outro lado. Por isso acredito na chamada Educação Ambiental Biocêntrica. E libertária. Com as pessoas livres para optar pelo modelo de Ética que pautará sua passagem pela Terra. E essa escolha, meus alunos fizeram por si. Não foi imposta. Em sua formatura, não farão de seu Juramento, outra falácia:“Juro, pela minha fé e pela minha honra e de acordo com os princípios éticos do Biólogo, exercer as minhas atividades profissionais com honestidade, em defesa da vida, estimulando o desenvolvimento científico, tecnológico e humanístico com justiça e paz”. (enunciado regulamentado pelo Conselho Federal de Biologia - Decreto nº 88.438, de 28 de junho de 1983). “Defesa da vida” e “justiça e paz” entende-se, para todas as espécies.
Enquanto houver zoológicos, aquários, serpentários do tipo “vitrine”, espero que existam educadores como meus alunos, (que ainda não se formaram, mas já são biólogos de coração), capazes de fazerem com seus alunos, excursões a esses verdadeiros infernos (para os animais), capazes de realizar essas visitas com vistas a ação. Capazes de conduzir uma discussão sob outra ótica, sob outra ética.
*Marcela Teixeira Godoy é Bióloga e Professora Universitária.
Espremidos pelos noticiários de corrupção, catástrofes e novelas, a agressão animal com pouca frequência é divulgada. E quando feito, não há continuidade alguma (como vemos algumas reportagens do Plin Plin dizerem: “Estamos de olho”). Vida animal não ganha corpo nas matérias que realmente chamam a atenção.
Quantos de vocês lembram-se da briga Globo x Record? Ela rendeu mais de 15 minutos em horário nobre para uma acusação a Edir Macedo sobre a extorsão de dinheiro dos fiéis enquanto a Record, em contrapartida, fez uma matéria especial de defesa e com novas acusações de uso indevido de dinheiro pela Rede Globo. Esse bla bla bla todo durou meses, rendendo várias entrevistas e fatos confidenciais, uma verdadeira força-tarefa para que uma conseguisse fuçar a vida da outra.
Durante: Medo
Uma vida animal (que é igual a sua) foi tirada por uma garota (porque para mulher ainda faltam alguns quesitos, não é mesmo?). Formada em enfermagem (curso que dura cerca de dois anos), esperávamos, no mínimo, sensibilidade á vida. Ao invés disto, 22 anos e uma filha pequena, praticou um ato de extrema brutalidade aos olhos da pequena.
O que a mídia devia ter perguntado: Você gostaria de ser tratado por uma enfermeira assim? Não há testes psicológicos antes de formar alguém para cuidar de uma vida? Não haverá uma punição à altura para essa cidadã?
Já que a mídia não fez, a população fez!
Depois: Brados paulistas
"Depois do caso do yorkishire que comoveu multidões em todas as redes sociais e até mesmo nas mídias mais tradicionais, um movimento em prol dos direitos dos animais foi realizado no domingo de 22 de janeiro. O evento aconteceu simultaneamente em mais de 170 cidades do país.
De ativistas a cidadãos comuns, apenas a capital paulista reuniu cerca de cinco mil pessoas no MASP, com um único objetivo: a punição contra crimes aos animais.
Os manifestantes ocuparam três pistas da Avenida Paulista e seguiram para a Rua da Consolação. Motoristas e pedestres que passavam pela região também expressaram o apoio à causa, seja unindo-se à passeata ou aumentando o brado por justiça, cadeias e leis rígidas para aqueles que agridem esses seres indefesos.”
"A vida é tão preciosa para uma criatura muda quanto é para o homem. Assim como ele busca a felicidade e teme a dor, assim como ele quer viver e não morrer, todas as outras criaturas anseiam o mesmo." (Dalai Lama)
Agradeço a Luciana Bender, pela colaboração com o texto.
Nós do Idéia Nossa apoiamos 100% a ação do Crueldade Nunca Mais, e estaremos presentes nas próximas mobilizações.
A palavra sânscrita ahimsa, usualmente traduzida como não-violência literalmente significa, não ferir ou ser inofensivo. Para praticar ahimsa, primeiramente temos que praticá-la dentro de nós mesmos. Em cada um de nós, há certa quantidade de violência. Dependendo do nosso estado, nossa resposta às coisas será mais ou menos não-violenta. Mesmo se formos orgulhosos de sermos vegetarianos, por exemplo, temos que reconhecer que a água em que cozinhamos os vegetais contém muitos micro-organismos. Não podemos ser completamente não violentos, mas sendo vegetarianos, estamos indo na direção da não violência. Se quisermos ir para o norte, podemos usar a Estrela do Norte para nos guiar, mas é impossível chegar até ela. Nosso esforço é apenas nos dirigirmos naquela direção.
Qualquer um pode praticar alguma não-violência, mesmo soldados. Alguns generais, por exemplo, conduzem suas operações de modo a evitar matar pessoas inocentes. Isto é um tipo de não violência. Para ajudar soldados a se moverem para uma direção não-violenta, temos que estar em contato com eles. Se dividirmos a realidade em dois campos – o violento e o não-violento – e ficarmos em um campo enquanto atacamos o outro, o mundo nunca terá paz. Sempre acusaremos e condenaremos aqueles que sentimos que são responsáveis pelas guerras e injustiças sociais, sem reconhecer o grau de violência em nós mesmos. Precisamos trabalhar em nós mesmos e também naqueles que condenamos se quisermos ter um impacto real.
Nunca ajuda desenhar uma linha e responsabilizar algumas pessoas como inimigas, mesmo aqueles que agem violentamente. Temos que abordá-los com amor nos nossos corações e fazer o nosso melhor para ajudá-los a se mover na direção da não-violência. Se trabalharmos pela paz baseados na raiva, nunca iremos ter sucesso. Paz não é um fim. Ela nunca pode acontecer através de meios não pacíficos.
Quando protestamos contra uma guerra, podemos assumir que somos uma pessoa pacífica, um representante da paz, mas pode não ser o caso. Se olharmos em profundidade, observaremos que as raízes da guerra estão nos modos não conscientes que temos vivido. Não plantamos sementes suficientes para a paz e entendimento em nós mesmos e nos outros, portanto somos co-responsáveis: “Como eu tenho sido assim, eles são daquele jeito.”
Uma abordagem mais holística é o caminho do “interser”: “Isto é assim, porque aquilo é daquele jeito.” Este é o caminho do entendimento e amor. Com este insight, podemos ver claramente e ajudar nosso governo a ver também. Então poderemos ir a uma passeata e dizer, “Esta guerra é injusta, destrutiva e não merecedora da nossa grande nação.” Isto é muito mais efetivo que raivosamente condenar os outros. A raiva sempre acelera o estrago.
Sabemos como escrever fortes cartas de protesto, mas também precisamos escrever cartas de amor para o nosso presidente e representantes, demonstrando entendimento e usando o tipo de linguagem que eles irão apreciar. Se não fizermos isso, nossas cartas podem acabar no lixo e não ajudar ninguém. Amar é entender. Não podemos expressar amor para alguém a não ser que o entendamos. Se não entendermos nosso presidente ou congressistas não poderemos escrever para eles cartas de amor.
As pessoas ficam felizes em ler boas cartas nas quais compartilhamos nossos insights e nosso entendimento. Quando eles recebem este tipo de carta, se sentem entendidos e prestarão atenção às nossas recomendações. Você pode pensar que a maneira de mudar o mundo é eleger um novo presidente, mas um governo é apenas um reflexo da nossa própria consciência. Para criar uma mudança fundamental, nós, membros da sociedade, temos que nos transformar. Se quisermos paz real, temos que demonstrar nosso amor e entendimento de forma que os responsáveis pelas decisões aprendam de nós.
Todos nós, mesmo pacifistas, temos dor dentro de nós. Nós nos sentimos com raiva e frustrados, e precisamos encontrar alguém disposto a nos ouvir e que seja capaz de entender nosso sofrimento. Na iconografia budista, há um bodisatva chamado Avalokitesvara que tem 1.000 braços, 1.000 mãos e tem um olho na palma de cada mão. Mil mãos representam ação e o olho em cada palma de mão representa o entendimento. Quando você entende uma situação ou pessoa, qualquer ação que faz ajudará e não causará mais sofrimento. Quando você tem um olho na sua mão, sabe como praticar a verdadeira não-violência.
Imagine se cada uma das nossas mãos tivessem um olho nelas. É fácil representar numa figura uma mão com um olho, mas como pode um artista também colocar um olho nas suas palavras? Antes de dizer algo, temos que entender o que estamos dizendo e a pessoa para quem nossas palavras são direcionadas. Com o olho do entendimento, não diremos coisas que façam outras pessoas sofrerem. Culpar e discutir são formas de violência. Quando falamos, se sofremos grandemente, nossas palavras podem ser amargas e não irão ajudar ninguém. Temos que aprender a nos acalmar e sermos uma flor antes de falarmos. Esta é a “arte da fala amorosa.”
Ouvir também é uma prática profunda. O bodisatva Avalokitesvara tem um profundo talento para a escuta. Em chinês seu nome significa “ouvindo os choros do mundo.” Temos que ouvir de uma maneira que entendamos o sofrimento dos outros. Temos que nos esvaziar e deixar espaço de forma que possamos ouvir bem. Se inspirarmos e expirarmos para nos refrescarmos e nos esvaziarmos, seremos capazes de sentarmos parados e ouvir à pessoa que está sofrendo.
Quando esta pessoa está sofrendo, ela precisa de alguém que a ouça com atenção sem julgar ou reagir. Se ela não puder achar alguém na família, pode ir a um terapeuta. Apenas por sermos ouvidos profundamente, já aliviamos uma grande parte da dor. Esta é uma prática importante de paz. Temos que ouvir dentro de nossas famílias e comunidades. Temos que ouvir a todos especialmente àqueles que consideramos nossos inimigos. Quando mostrarmos nossa capacidade de escuta e entendimento, a outra pessoa também irá nos ouvir, e teremos a chance de falar sobre nossa dor. Este é o começo da cura.
O pensamento é a base de tudo, é importante para nós colocar um olho de consciência em cada um de nossos pensamentos. Sem um correto entendimento da situação ou pessoa, nossos pensamentos podem nos levar ao erro e criar confusão, desespero, raiva e ódio. Nossa tarefa mais importante é desenvolver o insight correto. Se olharmos profundamente na natureza do interser, que todas as coisas intersão, pararemos de culpar, discutir e matar e nos tornaremos amigos de todos.
Há três domínios da ação – corpo, fala e mente. Adicionalmente, há a não-ação, que é frequentemente mais importante que a ação. Sem fazermos nada, as coisas às vezes podem ir mais suavemente, apenas devido à nossa presença pacífica. Em um barco pequeno quando uma tempestade vem, se uma pessoa fica sólida e calma, os outros não entrarão em pânico, e o barco terá maiores possibilidades de continuar flutuando. Em muitas circunstâncias, não-ação é fundamental para o nosso bem-estar.
Se pudermos aprender o modo de vida que a árvore tem – permanecendo frescos e sólidos, pacíficos e calmos – mesmo se não fizermos muitas coisas, outros se beneficiarão de nossa não-ação, de nossa presença. Podemos também praticar a não-ação no domínio da fala. Palavras podem criar entendimento e aceitação mútua, ou podem causar o sofrimento dos outros. O melhor às vezes é não falar nada. Este é um texto sobre ação social não violenta, mas precisamos discutir também não-ação não violenta. Se quisermos realmente ajudar o mundo, a prática da não-ação é essencial.
É claro, às vezes não-ação pode causar danos. Quando alguém precisa de nossa ajuda e recusamos, ela pode morrer. Se um monge, por exemplo, vê uma mulher se afogar e não quer tocá-la por causa de seus preceitos, ele irá violar o mais fundamental princípio da vida. Quando vemos uma injustiça social, se praticarmos não-ação, podemos causar danos. Quando pessoas precisam de nós para dizer ou fazer algo, se não fizermos nada, podemos matar pela nossa inação ou silêncio.
Para praticar ahimsa, primeiramente precisamos aprender a lidar pacificamente conosco mesmos. Se criarmos verdadeira harmonia dentro de nós, saberemos como lidar com a família, amigos e associados. Técnicas são sempre secundárias. O mais importante é se tornar ahimsa, de forma que quando uma situação se apresente, não criaremos mais sofrimento. Para praticar ahimsa, precisamos de gentileza, bondade amorosa, compaixão, alegria e equanimidade direcionadas a nossos corpos, nossos sentimentos e outras pessoas.
A paz real deve ser baseada no insight e entendimento e para isso devemos praticar a reflexão profunda – olhar profundamente dentro de cada ato e cada pensamento da nossa vida diária.
Com plena consciência – a prática da paz – podemos começar a trabalhar para transformar as guerras em nós mesmos. Há técnicas para fazer isso. Respiração consciente é uma. A cada vez que ficamos aborrecidos, podemos parar o que estamos fazendo, evitar dizer qualquer coisa, e inspirar e expirar várias vezes, consciente de cada inspiração e expiração.
Se continuarmos aborrecidos podemos ir para uma meditação caminhando, conscientes de cada passo lento e cada respiração que dermos. Através do cultivo da paz interior, levamos paz para a sociedade. Depende de nós. Praticar a paz interior é minimizar o número de guerras entre este e aquele sentimento, ou entre esta e aquela percepção, e então podemos ter paz real com os outros também, incluindo membros de nossa própria família.
Sou sempre questionado, “E se você estiver praticando amor e paciência e alguém invade sua casa e tenta sequestrar sua filha ou matar seu marido? O que você faria? Você deveria matar a pessoa ou agir de uma maneira não-violenta?” A resposta depende do estado de seu ser. Se você estiver preparada, você pode reagir calmamente e inteligentemente, do modo mais não violento possível. Mas para estar preparado para reagir com inteligência e não-violência, você tem que se treinar antes. Pode levar dez anos ou mais.
Se você esperar até a hora da crise para perguntar, será tarde demais.Uma resposta deste ou daquele tipo seria superficial. Neste momento crucial, mesmo se souber que não-violência é melhor que violência, se seu entendimento for apenas intelectual e não estiver em todo o seu ser, você não agirá não-violentamente. O medo e a raiva em você não te deixarão agir do modo mais não-violento.
Para evitar a guerra, para prevenir a próxima crise, precisamos começar exatamente agora. Quando uma guerra ou crise começou já é tarde. Se nós e nossos filhos praticarem ahimsa nas nossas vidas diárias, se aprendermos como plantar sementes de paz e reconciliação em nossos corações e mentes, começaremos a estabelecer paz real, e deste modo, podemos ser capazes de evitar a próxima guerra. Se outra guerra vier, saberemos que fizemos o nosso melhor.
Dez anos será tempo suficiente para evitar outra guerra? Quanto tempo leva para respirar conscientemente, sorrir, e estar totalmente presente a cada momento? Nosso inimigo real é o esquecimento. Se nutrirmos a plena consciência a cada dia e regarmos as sementes de paz em nós mesmos e naqueles a nossa volta, temos uma boa chance de evitar a próxima guerra e desarmar a próxima crise.
Nojento. Isso me embrulhou o estômago de tanto repúdio que sinto! É nessas horas que eu dou graças a Deus por não conhecer gente tão baixa. ARGH! E lá vou eu ouvir #Bebe de novo!
Sou um covarde. Um frouxo de dar pena. Talvez, incorrigível. Tudo por enxergar a mulher – entre outras qualidades – como sujeito de direitos. Ao menos é a definição que cabe a este pobre diabo no pensamento de Luiz Felipe Pondé, ícone da nova direita nacional, um Olavo de Carvalho de All Star.
As aspas sobre os direitos femininos, suponho, questionam sua validade. Tá. Ocorre que, na mesma segunda, a realidade deu as caras sobre a situação da mulher no Brasil, com a divulgação de uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc . O estudo aponta que, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no país. Chocante? Há dez anos, eram oito as mulheres espancadas no mesmo intervalo.
A semana também foi marcada pela divulgação de um vídeo que mostra delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo tirando à força a calça e a calcinha de uma escrivã durante revista, suspeita de receber propina. A agressão ocorreu em 2009, mas veio à tona somente agora. Ao longo de 12 minutos do vídeo, a escrivã diz que os delegados poderiam revistá-la, mas só retiraria a roupa para policiais femininas. Em vão. As cenas são revoltantes para um “covarde” como eu. O governador Geraldo Alckmin também se indignou, não com os meganhas, mas com a divulgação do vídeo! Somente dias depois de intensa repercussão, tomaria alguma providência.
Minha “covardia” também me incapacitaria de taxar a Lei Maria da Penha de coisa do tinhoso, como fez o juiz – isso, juiz – Edilson Rodrigues. Afastado do cargo pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e reconduzido ao cargo nesta semana por decisão do ministro do STF Marco Aurélio Mello, o magistrado acha que “a desgraça humana” começou por causa da mulher, para quem o mais importante na vida deveria ser, em vez de emancipação, a realização “como um ser feminino”.
Natural, argumentaria o filósofo. Afinal, como afirma, “as mulheres brasileiras são como dizem os franceses ‘femmes aux hommes’ (mulheres para os homens)”. Aqui, a generalização não é engano. É intencional. Uma resistência a direitos postos em debate, que revela saudosismo de quem lamenta que os aeroportos brasileiros estejam repletos de pobres – “parece uma rodoviária” é o atual mantra de recalcados de classe média arriba.
Mas a vida segue. E neste verão vai no embalo da totalmente hit “Minha Mulher Não Deixa Não”, do bardo pernambucano da dor de cotovelo Reginho.
A crise no Rio e o pastiche midiático Autor: Luiz Eduardo Soares*
Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Emalguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando asdivergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases deum consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética– supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu -, na esperançade que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, meesforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão,exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa seintensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, dasegurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestãopública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamostanto –ou sob tanta pressão – quanto os jornalistas. Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convitespara falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas sãocontínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular.Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas oudeclarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria comoresponder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito aoportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia oudesapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação.Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade queconstruí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecerna TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estãosendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno depreconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muitograve e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficazpara o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Comofazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções delocutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamentoanalítico é editado, truncado, espremido – em uma palavra, banido -, paraque reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, asimagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmentetriunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia:atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo einformativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nosintervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) Oque fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O quea polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?(c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional doRio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e asOlimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudarama legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu,tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de umaperspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessasreportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regrasjornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Poisbem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse códigojornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratadoé complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo deexplicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta asvisões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a sercúmplice involuntário de sua contínua reprodução. Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modeloexplicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos aoconhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudançasinadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistadorexigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me doexpediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador dasquestões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafioda insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quandose está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentosconhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, defato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar opaciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal,apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, dedesespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia eassepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, nocorredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nempara formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotarprocedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar apergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado poroutra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio eno Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como suaintensificação, expressa nas sucessivas crises? Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que asociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e nãoaceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, amelhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, apostura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se asociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordaro problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional arequerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando,enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longoprazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quaisnão há soluções mágicas. A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção dareconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto aoimediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido,que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos eprolongando-se a vida em risco. A pergunta é obtusa e obscurantista,cúmplice da ignorância e da apatia.
O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, otráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aostraficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia,diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podresfazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior dotráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios epopulações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos pormeios cruéis. Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) escondeo verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la – isto é,separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia – teria de ser a metamais importante e urgente de qualquer política de segurança digna dessenome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de quesegmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que aindaexiste tráfico armado, assim como as milícias. Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo.Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados ehonestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por saláriosindignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional emcurso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívioinevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade,sócios ou mesmo empreendedores do crime. Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidadeem franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidadeeconômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociaispredominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competircom as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender,exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelodo tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado,antieconômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos,armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros sãopoliciais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todotipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com abanda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com oslíderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre umterritório e uma população, sobretudo na medida em que os jovens maisvulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas.Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens poroutro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticosmais avançados: a venda por *delivery *ou em dinâmica varejista nômade,clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor,mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fossecontrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muitomenos danoso para a sociedade, por óbvio.
O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinadopara isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começarcumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Issoresolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente,de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre daspolícias. E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com focono controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas nabaía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindopistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF nafiscalização das cargas nos aeroportos.
A imagem internacional do Rio foi maculada? Claro. Mais uma vez.
Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas? Sem dúvida. Somosótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espíritocooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar deAquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia adia.
Palavras Finais
Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento,mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outrosmomentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. Enão porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modeloinsustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs,vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoiopolítico e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, queimplantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com“p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sidoressuscitado, graças à liderança e à competência raras do Ten. Cel. CarballoBlanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minhasaída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença deRicardo Henriques na secretaria estadual de assistência social – um dosmelhores gestores do país -, elas não terão futuro se as polícias não foremprofundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terãode incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ouseja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação,dada a degradação institucional já referida. O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, noRio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porquesempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico dedrogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão ecomeça, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios – as bandas podresdas polícias – prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamenteambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianasde sua hegemonia. Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versustráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos epor que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estasdeixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas,crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituiçõespoliciais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados equalificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de serreativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação? As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estadodemocrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e asliberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger avida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente àsociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. Adespeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas emprofundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram,adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. Omodelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estadoautoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve àdefesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impedea gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e aavaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas paraidentificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidasonde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas eanárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a PolíciaCivil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados enão-delegados. E nesse quadro, a PEC 300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores,que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundoemprego na segurança privada informal e ilegal. Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino“gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade:para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, asautoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo,deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há gravesproblemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscamsobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mastambém dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam ainsegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo emgrupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias,dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo(pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informale ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não fazsentido buscar aprimorar as polícias. O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio deJaneiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como umdia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro.Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz eincorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores comocontumazes e incorrigíveis idiotas. Ou se começa a falar sério e levar asério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos maisdigno furtar-se a fazer coro à farsa.
*Luiz Eduardo Soares é Mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política. Foi secretário nacional de segurança pública (2003) e coordenador de segurança, justiça e cidadania do Estado do RJ(1999/março 2000). Colaborou com o governo municipal de Porto Alegre, demarço a dezembro de 2001, como consultor responsável pela formulação de umapolítica municipal de segurança. De 2007 a 2009, foi secretário municipal devalorização da vida e prevenção da violência de Nova Iguaçu (RJ). Em 2000, foi pesquisador visitante do Vera Institute of Justice de Nova York e daColumbia University. Co-autor de “Elite da Tropa” e “Elite da Tropa 2″,autor de “Meu Casaco de General” e “Espírito Santo”.
Para o Ideia Nossa ingressar na campanha "Fim da Violência Contra Mulher", que começou sábado (20) e vai até dia 25 de novembro, deixo essa contribuição retirada do Pedalante, que por sua vez retirou do Blog das Pedalinas.
Mas vem cá, ja imaginou estar subindo uma avenida (a sumaré, no caso), em pleno domingo, feliz e contente por ter poucos carros na rua, e perceber que um carro reduz a velocidade e sentir uma palmada bem dada na bunda seguido de um “vaaaaai coisa gostooooosa” e várias risadas de um bando de playboys?
Nunca imaginou? Nem eu. Mas isso aconteceu comigo, mas o carro preto de placa 2416 e a cara do mauricinho orgulhoso de seu ato machão-ogro de camisa amarela olhando e rindo de mim no retrovisor, eu nunca vou esquecer.
Pra mim, um cara que faz algo desse tipo, é o mesmo que estupra e bate na mãe. O caráter (zero) e a certeza de que o mundo gira em volta do seu pinto são características comuns a esses seres desprezíveis.
Poderia fazer uma lista do que senti ao tomar o tapa: ódio, vergonha, humilhação, revolta, raiva, etc, etc, etc. E todos esses sentimentos juntos me deram forças nas pernas para pedalar na velocidade maior que eu pude com o intuito de alcançar o 2416, 2416, 2416 – repetia para mim mesma.
Rá! Lá estavam eles, distraídos e cantando esperando o sinal verde. Cheguei devagarzinho sem ser percebida pela direita. Com muita vontade, cuspi e vomitei na cara do de amarelo, arremesei-o para fora do carro, chutei bem no meio do seu saco. Não tive pena da sua cara de pavor, me pedindo peloamordedeus para parar. Não parei. Seus amigos-super-machões, se envergonharam do amigão que dá tapas em bundas de mulheres estar apanhando de uma de suas vítimas, e fugiram, deixando-o para trás.
Obviamente esse é o final que minha criatividade alimentada de ódio e revolta produziu.
O final real é bem diferente disso: Infelizmente (ou felizmente) todos os sinais estavam abertos, não tinha congestionamento e os perdi de vista. Me recolhi no meu suor e humilhação e engoli seco para conseguir terminar o dia sem matar um.
Postei essa foto no início do meu post, que é o resultado de uma busca no google das palavras “mulher + bicicleta”. E isso resume muito bem tudo o que escrevi. Tirem suas próprias conclusões.
Desculpem o relato meio pesado para uma segunda feira. E sorte pra todas nós, que vamos pedalar muito ainda durante toda a semana. Que pessoas como essas não cruzem nosso caminho e não estraguem nosso dia (e muito menos nossa dignidade).