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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Da utilidade dos animais

Queridos leitores do Ideia Nossa, perdoem nossa abstinência, mas conseguir um tempo para postar está sendo cada vez mais difícil.

Adoraria discorrer longamente sobre este texto, mas terei que apenas jogá-lo na roda para discussão.

A dica para o post foi do Toninho e o texto é do mestre Carlos Drummond de Andrade.

Aguardo comentários.

Boa leitura!

@alvarodiogo “Compartilhe suas idéias”

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Da utilidade dos animais
Carlos Drummond de Andrade, in: Crônicas. São Paulo: Ática, 1979.
(Para gostar de ler, volume 4)

Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós e, além disso, são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca... Todos ajudam.

– Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?

– Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pêlo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.

– Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?

– Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.

– Ele faz pincel, professora?

– Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.

Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:

– Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.

– Vivo, fessora?

– A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz... produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores etc.

– Depois a gente come a vicunha, né, fessora?

– Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar lã da vicunha, que torna a crescer...

– E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.

– Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?

– A carne também é listada? – pergunta que desencadeia riso geral.

– Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito das coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disso. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O cocô do pingüim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pingüim...

– A senhora disse que a gente deve respeitar.

– Claro. Mas o óleo é bom.

– Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.

– Pois lucra. O pêlo dá escovas de ótima qualidade.

– E o castor?

– Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.

– Eu, hem?

– Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pêlos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa... O biguá é engraçado.

– Engraçado, como?

– Apanha peixe pra gente.

– Apanha e entrega, professora?

– Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele e o biguá pega o peixe, mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.

– Bobo que ele é.

– Não. É útil. Ai de nós, se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?

– Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem os pêlo, o couro e os ossos.

2 comentários:

George Ruchlejmer disse...

Gostei do texto, mostra bem que quando pequenos, mesmo não concordando, as pessoas fazem questão de te fazer acreditar no que diz porque é mais velha e sabe mais das coisas. Duas palavras resumem o pensamendo dos alunos:

"Por que ?"

Wladimir disse...

Alvaro

Ótimo texto! O agente Smith, em Matrix, tinha toda a razão, o ser humano não passa de um vírus assolando o planeta.

Wladimir

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