--- Frase de Agora! ---
"A água é para os escolhidos
Mas como podemos esperar que sejamos nós..
... eu e você?"

Máquina do Tempo: Vaga Viva do Coletivo Ideia Nossa. A única vaga viva do lado de cá da ponte =) Vaga Viva do Ideia Nossa

Destaque da Semana: Onde está o sol que estava aqui?
Ladrões de sol, crise hídrica e êxodo rural

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Undertow Parte I


- Então é chegada a hora... Vamos embora! Não importa mais se você encontrou as respostas que precisava saber, agora eu já sei!
Atordoado o rapaz discutia com sua imagem distorcida no espelho. Pelo banheiro caixas de remédio e garrafas de whiskey, o cheiro do álcool e do vômito que escorria pelo vaso sanitário encontrava o fétido odor de uma adolescência em crise e juntos aumentavam mais e mais a vontade de gritar e de voar pra bem longe.
- Eu encontrei o caminho! Eu! Eu disse que EU encontrei o caminho sem sua ajuda imbecil, sem você pentelhando nos meus ouvidos, sem você pra me contar cretinices, eu aprendi a andar sozinho...
Sem mais lágrimas, o pranto seco ecoava pela casa vazia, sem vida. Batendo com a cabeça na parede escura de infiltrações, buscava forças para se levantar, mas não conseguia, só lhe restava gritar.
- Onde está todo mundo?! Eu quero sair!
Seus pais não sabiam o que fazer, ele estava mudado, há algumas semanas o dia-a-dia transformou-se numa rotina insuportável. Mas nunca tinham sido agredidos, então, aproveitando mais uma de suas crises agudas no banheiro, trancaram-no na casa e, ensaguentados, correram para buscar ajuda.
Com esforços notáveis e uma respiração cansada aproximou-se da janela.
- ...Eu voaria?
Alguns segundos de pausa poética e o rapaz se concentra no horizonte, o sol se punha.
- Os céus parecem me compreender... É mais um dia de nossas lindas e maravilhosas vidas indo pro lixo, e ele sangra. Aqui está tudo tão vermelho, mas o céu está mais, ele sangra mais... Ele sobreviverá?
Tocando levemente as feridas que já não sangravam tanto, ele olha ao redor, acho que não quer mais isso. Seus olhos pestanejam, é hora de durmir e acordar pra outro dia maravilhoso.

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Deixando-se cair no chão ele avista um comprimido intacto, não se lembrava de ter tomado aquele, ele estava tão bonito, brilhante e convidativo. Esticou-se e pegou-o de dentro da privada recheada de vômito, levou à boca e procurou alguma garrafa ao redor, mas estavam vazias. Apoiou-se na pia, estava fraco e buscava água, escorregou e cortou-se numa gafarra quebrada, sua perna agora sangrava e o chão ganhava a segunda mão de sangue.
Não gritou. Ficou estático por um tempo, logo se levantou e investiu um soco furioso em um dos espelhos que ainda não estava quebrado.
- Aaah corra sol, corra e não me veja! Não veja o espelho de sua alma, se não tudo que presenciou irá gritar.
E se via no espelho, todo distorcido e via o reflexo avermelhado do sol obedecendo as suas ordens.
- Você sempre esteve aí e um dia se perderá, então que nos percamos juntos... Você me levaria além do horizonte e deixaria sentir seu calor? Aqui está tão frio...
O ambiente úmido e mal cheiroso não contribuía em nada. Apesar de tudo ele se sentia vivo, ele talvez acreditasse em seu coração agora, talvez ele realmente estivesse descobrindo sua verdadeira essência, mas a verdade o faz morrer.
Alguns anos de vida mal vivida, alguns anos de vida vivida igual a todas as outras vidas: defendendo causas que não colocava em prática e praticando coisas que repudiava. Seus olhos abriram, não queria crescer e ser como todos eles e nada do que quisesse fazer para tentar mudar era permitido. Já não queria mais uma vida medíocre, a verdade o consumia.
Encolhido em um canto úmido agonizava, chorava e gritava por dentro. Estava pálido, seus olhos denuciavam o estado de sua alma, e ela se contorcia. Tremia e olhava para todos os cantos do banheiro, como se visse todos os pecados da humanidade em cada teia de aranha, em cada infiltração, em cada gota de sangue.

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- Argh...
Alguns múrmurios pulavam de sua boca.
- Eu...
Tremia mais e mais, não controlova e não se encontrava mais nesse planeta.
- Eu quero sangrar... Sangrar meus pecados...
Com movimentos lentos, porém certeiros abria as feridas que tinha nos braços e nas pernas. Uma terceira mão de sangue cobria o chão. Empalidecia mais e mais.
- Vou chorar todos os pecados, todos os meus erros enquanto puder respirar e vou correr com você sol, não parta sem mim.
Ia se levantando, poucos raios de luz vermelha alcançava o banheiro agora, tudo estava escurecendo.
- Eu quero esquecer os caminhos, quero esquecer tudo que descobri, não quero mais andar sozinho! Não vá sem mim...
Esgueirava-se em direção à porta, suas forças estavam no fim, suas lágrimas já estavam secando, mas o sangue não cessava.
Destrancou a porta e arrastou-se pelo corredor deixando um rastro escuro de sangue atrás de si que contrastava com o piso cor de marfim.
- Já estou cansando, não consigo mais chorar... Deixe-me quebrar as coisas que amo?... Preciso chorar!
Fotos de família acolhidas confortavelmente nas mobílias pelo corredor eram lançadas ao longe e novos soluços eram lançados pra fora. Todas as fotos de momentos que sorria, de momentos que lembrava com carinho, não eram reais. Por onde passava deixava um rastro de sombra e sangue, o sol partia, a penumbra adentrava.
Na cozinha não via muita coisa, estava escuro e não alcançava o interruptor. Estava frio e a umidade não era o principal o problema, havia um odor estranho no ar que irritava suas narinas, ele já nem sentia mais a mistura de álcool, vômito e sangue no ar...

Um comentário:

Bah'* disse...

Eu Lih :D
hauhaua, quando eu ler tudo eu deixo um coment descente ;) Mais até agora eu gostei n.n

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